sexta-feira, abril 29, 2016

25 anos a Alicatar - o livro de Veiga Freire

A Recriação em azulejo alicatado dos Painéis de São Vicente de Fora exposta na biblioteca municipal do Fundão marcou o lançamento do livro "25 anos a Alicatar Azulejo com outra arte", do fundanense José Veiga Freire. A obra assinala as bodas de prata na carreira do artista.


Os painéis de São Vicente de Fora, pintura de referência do século XV, que se encontram no Museu Nacional de Arte Antiga, constituem dos mais demorados e minuciosos desafios de José Veiga Freire.
Recriar o painel que “retrata 58 personagens e que é uma obra-prima” da pintura portuguesa não terá sido tarefa fácil mas Veiga Freire nunca se furtou a desafios maiores. 

Antonieta Garcia, professora e investigadora, sublinhou "o prazer de terminar algo que, quanto mais difícil é, mais desafiante se torna". "O mistério da criação" como "feitiço" na descoberta da obra de José Freire foi outra das ideias deixadas, na apresentação da obra.

E "como o saber fazer a arte que surpreende" marca o percurso do criador Veiga Freire, Antonieta Garcia folheou o livro e deixou-se encantar com os azulejos inspirados nas colchas de Castelo Branco "que tanto cativam os estrangeiros", no impressionismo das telas de Van-Gogh ou nos nomes sonantes da literatura. Fernando Pessoa, por exemplo, inspirou 18 telas do artista e denotam "vários traços identitários de ser português".  Nas referências à Beira Baixa e ao Fundão sobressai a figura de António Paulouro,acrescentou. 

"A forma de produzir arte do dia-a-dia aproximando-o dos seus conterrâneos" foi, aliás, sublinhada pelo amigo e advogado Leal Salvado que assinou o prefácio do livro.

No conjunto a obra de Veiga Freire é constituída por cerca de 500 peças. Muitas delas estiveram expostas em 2014 na Moagem- cidade do engenho e das artes no Fundão. 
Cada obra de arte transporta o visitante, agora é leitor da obra de Veiga Freire, para a geografia dos afetos.

A grandeza geográfica dos afetos de Veiga Freire esteve à vista na cerimónia de lançamento do livro. Rodeado de dezenas de amigos e familiares, Veiga Freire estava emotivamente satisfeito, pois contava reunir à sua volta tantas pessoas que lhe são próximas. O acontecimento cultural, diga-se, foi bastante concorrido. 


E quando a surpresa acontece que mais quererá o ex-bancário que completa em 2016 70 anos de vida e tem uma mão cheia de projetos e ideias para concretizar?!

terça-feira, abril 26, 2016

Contadores de Estórias na Biblioteca

No outro dia fui ouvir os Contadores de Estórias. Numa noite primaveril de abril António Fontinha, Ana Sofia Paiva e José Craveiro estiveram no Fundão para contar estórias de antigamente. 



Relatos sobre pessoas, lugares, tradições e piadas para uma plateia constituída por crianças e muitos adultos que riram muito com "um conto" ao qual se acrescentou "um ponto". Quer isto dizer que a oralidade recolhida na geografia territorial do país é muitas vezes recontada e dinamizada à maneira de cada contador de estórias. 

Outras vezes a memória coletiva de uma estória é adaptada à atualidade. Não raras vezes a intervenção soa a sátira.
No fundo, cada um dos atores imprime formulas diversificadas de interagir com o público.

Muitas vezes é o público que sugere a personagem ou a conclusão de uma linha condutora da Estória. 
Naquele sábado à noite, António Fontinha recorreu à imaginação do espectador para questionar o que é um travesseiro.

Houve quem recordasse o travesseiro como nome de um bolo. Uma criança sugeriu que travesseiro possa ser alguém que atravessa a passadeira.

A segunda opção mereceu a concordância de António Fontinha e a gargalhada do contador de estórias contagiou uma plateia inteira.
O segredo do êxito dos contadores de histórias tem muito a ver com o modo de interação entre quem conta e que ouve. Nesse particular António Fontinha e Ana Sofia Paiva são exímios.

A capacidade de brincar com as personagens, conferindo-lhe significados diferentes também cativa o público. José Craveiro, a dada altura, fez um trocadilho com "o diabo das histórias" ou "as histórias do diabo" e logo a gargalha coletiva tomou conta da sala.

Também há poesia e canções. Naquela noite recriou-se o "canto" do rouxinol que "é mais rico que o do cuco" avisou quem no palco encantou a plateia.

E as rimas encaixavam na perfeição. "Bendito e louvado que está tudo contado".
E assim terminou a segunda edição de "Contadores de Estórias". 

Para o ano, em abril, haverá mais uma sessão, prometeu a bibliotecária Dina Matos. O evento foi promovido pela Câmara Municipal do Fundão.

segunda-feira, abril 18, 2016

Senta-te aí!

O título tem tanto de sugestivo como de inusitado. Talvez o segundo adjetivo tenha mais a ver com o motivo da exposição que até dia 29 de maio está aberta ao público na Moagem- Cidade do Engenho e das Artes no Fundão.

A exposição "Senta-te Aí" promovida pelo jovem arquitecto fundanense Pedro Novo é uma viagem ao património particular de cadeiras que o também curador da mostra foi reunindo em casa. Dos anos 20 do século XX até 2014, cadeiras várias de sugestivo e anónimo designe. 

Algumas estiveram em lugares como o Café Aliança, o cine-Gardunha ou a Piscina Municipal do Fundão. Também há cadeiras assinadas pelo próprio Pedro Novo. Uma delas foi desenhada para uma intervenção minimalista em Lisboa.
Mas o património das cadeiras mostra-nos outras criações. Por exemplo uma dessas peças de mobiliário foi desenhada em 1978 por Gastão Machado.  

Outra, talvez das mais antigas, foi desenhada por Daciano da Costa, que a definiu como apresentando “um designe comprometido que se destinava a equipar espaços de trabalho”.

Depois há também uma cadeira de Eduardo Anahory que foi desenhada em 1959 para casa de lazer pois é constituída por madeira e lona.
José Espinho é porventura o nome do desenhador mais vezes repetido na mostra.
E por fim, destaco uma cadeira (a da imagem) do arquitecto Raul Chorão Ramalho datada de 1955.

As cadeiras de aço da década de 40 do século XX e o banco rotativo hospitalar ou a cadeira de projectista do cine Gardunha em madeira e aço da década de 50 do século passado.

Uma cadeira parideira, outra cadeira mas de baloiço e algumas cadeiras portuguesas da segunda metade do século XIX compõem a mostra.

O arquitecto Pedro Novo que há mais de um ano cuidou e assinou a riquíssima exposição sobre edifícios emblemáticos do século XX no Fundão está de volta com esta mostra. Pelo caminho deixou a marca da Pedro Novo – arquitectos nos conteúdos da Casa do Barro no Telhado (Fundão).


Em breve, espero, haveremos de contactar, com outros trabalhos seus. O centro interpretativo do centeio parece que precisa de uma volta! Força Pedro.

terça-feira, abril 12, 2016

Voltar ao "berço"

Regressei ao "berço". 

"Plantei" flores de saudade e revivi memórias dos antepassados. Um tempo ausente, mas muito presente.

Revisitar lugares que são nossos por natureza ou apenas por afeto e emotividade pode revelar-se uma "carga de trabalhos".

Quer isto dizer que a saudade me tomou os passos e o olhar deixou dores no pescoço. Às vezes olhamos para trás e a menina do olho prende-se no infindável mundo das recordações.

Primeiro as emocionais. Depois as paisagens. A seguir os gestos. Também as palavras ditas. As mesmas que neste domingo de abril me revisitaram. Algumas guardo-as em mim. Outras vou partilhá-las aqui.

Saberá o leitor como é revisitar "o berço" e darmos-nos conta de que já lá não mora quase ninguém?

Muitas vezes nem as boas memórias e o ecoar das brincadeiras de outrora apagam esta sensação fúnebre de que poderemos ser dos últimos a regressar ao "berço".

Naquele dia não era a única viajante. Nem só meus passos percorreram as estreitas ruas ladeadas do casario fechado.

Felizmente, vão aparecendo outros viajantes. Poucos! 
Muito menos que o número de residentes que este postal dos anos 20 nos mostra.

Ai como custa regressar ao "berço" e dar-me conta de como o silêncio reinante é premonitório do fim das nossas aldeias!

“O Deputado da Nação” apresentado no Fundão

“Uma implacável sátira à classe política” e à volta de todos quantos sobrepõem o interesse pessoal ao interesse coletivo. 
Eis, em resumo, o novo livro de Manuel da Silva Ramos. 
Escrito em parceria com outro escritor, Miguel Real, o livro narra a história de Umbelino Damião.

Editado pela Parsifal o livro convoca o leitor para a “liberdade de expressão e o tom jocoso” de Manuel da Silva Ramos a que se junta “o tom histórico e linguagem abstrata” de Miguel Real. Para Miguel Real “O Deputado da Nação” é uma narrativa muito atual. “É uma caricatura dos deputados que uma vez no parlamento conseguem promover os negócios e contribuem para o descrédito da política”.

Já Manuel da Silva Ramos destaca como “O Deputado da Nação” encerra a trilogia iniciada com o livro de Miguel Real “A Morte de Portugal” e o trabalho assinado pelo escritor covilhanense “A Impunidade das Trevas e os Perfumes Eróticos” que retrataram os efeitos da austeridade em Portugal.
E Silva Ramos deixa o sonho: “Que Portugal passe a ter uma Assembleia da República virgem, sem gente corrupta”.

O livro foi apresentado pelo jornalista Fernando Paulouro, para quem o livro é "uma sátira implacável à sociedade atual". Fernando Paulouro encontra em “O Deputado da Nação” traços da literatura de Camilo e de Eça, embora à época não houvesse "mecanismos tão peritos" de negociata e de promiscuidade político-económica. 

Sublinhando o fato de o livro permitir viajar entre Lisboa e a Gardunha ou a Covilhã pois foi escrito a quatro mãos, Paulouro descreve o livro como sendo “muito bem-disposto” mas sem esquecer os “problemas graves da sociedade portuguesa”. “Da emigração à caricatura de políticos muito conhecidos da atualidade”. “Um livro capaz de nos mostrar como os deputados observam no exercício da política uma possibilidade de enriquecimento”, explicou Fernando Paulouro, acrescentando que o livro apresenta ainda "uma divertida caricatura da justiça".http://www.rcb-radiocovadabeira.pt/media/201604111636-o_deputado_final_.mp3