segunda-feira, junho 27, 2016

Orgulhosamente Academia de Música do Fundão

O mote do espetáculo de encerramento do ano letivo na escola de ensino artístico do Fundão era uma viagem a Londres.
Em palco estavam 350 jovens músicos e bailarinos das classes de teatro musical, orquestras, combo, coros.

Gente com uma energia incomensurável.

À hora marcada a juventude apanha o avião para uma viagem de sonho cuja banda sonora é uma combinação perfeita entre sons, dança, sentidos e emotividade.

Fly to London que esteve duas noites em cartaz no Fundão e com lotação esgotadíssima foi observado por 1400 pessoas que não poderiam ficar indiferentes ao talento e performance do coletivo magistralmente orientado pelo maestro Bruno Martins.

Durante mais de uma hora de espetáculo o espetador, sempre embalado pelos êxitos da música londrina e universal deixou-se guiar pelas bailarinas e viajantes que nos transportaram para locais emblemáticos londrinos. Um passeio no Wide Park famoso pelos seus jardins, observar o render da guarda no Palácio de Buckingham, assistir à rodagem de 007, visitar o Royal Ballet estiveram no périplo de um musical que ainda levou o espetador ao Fantasma da Ópera.

Um trabalho muito profissional apresentado pela Academia de Música e Dança do Fundão que é uma das referências culturais da capital da Cova da Beira e da região.

Se duvidas houvesse quanto ao valor seguro do investimento no ensino artístico da música e da dança, as mesmas seriam dissipadas por todos quantos puderam assistir ao espetáculo de encerramento do ano letivo da escola de ensino artístico do Fundão.

O diretor do estabelecimento de ensino que costuma emocionar-se com o talento e êxito dos alunos da Academia estava orgulhoso da sua escola, professores e alunos e explicou que o segredo de um percurso com vinte anos a somar êxitos se deve ao ambiente familiar que marca dos dias da Academia e ao trabalho que diariamente, às vezes fora de horas, se realiza nas salas de aula do estabelecimento de ensino.

E quando esse esforço e empenho continuados se traduzem num musical de qualidade superior só podemos aplaudir de pé e dar visibilidade pública ao trabalho da Academia Armando Paulouro.

A Academia de Música e Dança do Fundão é, de facto, um agente ativo na promoção da cultura nesta região de Portugal.

E não são apenas os magníficos concertos que atestam esse patamar de qualidade. O ano letivo que agora termina encerra na Academia de Música e Dança do Fundão um tempo letivo novamente marcado pela conquista de prémios, medalhas e outros reconhecimentos nas classes de piano e guitarra cujo dezenas de alunos foram este ano escolar premiados em concursos realizados no país e no estrangeiro.

Quando a nossa comunidade tem entre as suas instituições uma escola com a visibilidade e reconhecimento da Academia só podemos sentirmo-nos orgulhosos.

Parabéns a todos!

quarta-feira, junho 01, 2016

O canto da poesia num concerto de encher a alma

Às vezes tenho pena de não dispor de tempo nem disposição para escrever. Também tenho saudades de preencher os dias com a responsabilidade de dar notícias. As boas. Mesmo quando são más!

No outro dia estive na plateia para observar e ouvir um espetáculo de música portuguesa em que o mote foi revisitar a poesia portuguesa e as letras de amor de Camões ou Cecília Meireles.

Inserido na programação do Festival Literário da Gardunha, ao qual também não consegui ir, o concerto em que o piano de Mário Laginha tão bem combinou com a voz de Camané foi um belíssimo momento de introspeção.

"Cansaço" um poema de Luís Macedo num tema que ficou famoso na interpretação de Amália Rodrigues e que também foi interpretado no espetáculo Fado Revisitado foi dos momentos que mais me encheu a alma.

E diz o poema

Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao Deus-dará
Deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim.

Da poesia de David Mourão Ferreira que é dos poetas que Camané mais gosta de cantar fez se ouvir "Espelho Quebrado" que também é interpretado por Carminho e que diz


Com o seu chicote o vento / Quebra o espelho do lago
Em mim foi mais violento o estrago
Porque o vento ao passar / Murmurava o teu nome
Depois de o murmurar, deixou-me
Tão rápido passou / Nem soube destruír-me
As mágoas em que sou tão firme
Mas a sua passagem / Em vidro recortava
No lago a minha imagem de escrava
Ó líquido cristal / Dos meus olhos sem ti
Em vão o vendaval pedi
Para que se quebrasse / O espelho que me enluta
E me ficasse a face enxuta
Ai meus olhos sem ti sem ti
Em mim foi mais violento, o vento


Um dos mais conhecidos temas interpretados por Camané , chama-se "sei de um Rio". No concerto realizado no Fundão a interpretação deixou a plateia cheia de vontade de voltar ao registo do isqueiro ou da vela em punho e de braço no ar. 
Nunca me tinha dado conta da beleza do poema de Pedro Homem de Melo

Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando



E antes das despedidas, Mário Laginha e Camané recorreram à riqueza da "Inútil Paisagem" de Vinicius de Morais.

Mas pra quê? 
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar? Pra quê?
De que serve esta onda que quebra?
E o vento da tarde? De que serve a tarde? 
Inútil Paisagem
Pode ser que não venhas mais;
Que não venhas nunca mais...
De que servem as flores que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada...