quarta-feira, abril 19, 2017

Canções com Memória

Diz o poema da canção que hoje ecoará no Meo Arena

"Quantas vezes me sinto perdido 
No meio da noite Com problemas e angústias Que só gente grande é que tem Me afagando os cabelos Você certamente diria Amanhã de manhã você vai se sair muito bem Quando eu era criança Podia chorar nos seus braços E ouvir tanta coisa bonita Na minha aflição Nos momentos alegres Sentado ao seu lado, eu sorria E, nas horas difíceis Podia apertar sua mão" (...)

O tema belissimamente interpretado por Roberto Carlos é umas das minhas canções de e para a vida. O Rei completa hoje 76 anos. Minha mãe teria completado 72 e meu pai teria no dia 10 de abril alcançado a bonita fronteira dos 98.

Que têm meus pais a ver com uma das mais nostálgicas canções de Roberto Carlos?

Tudo.

Aprendi a ouvir Roberto Carlos nos anos 80 do século XX com os meus pais. Na Gardunha não havia televisão e naquela época também não havia consolas. Eu também não tinha muitos brinquedos nem bonecas. Na tranquilidade (hoje recordo assim a serra da Gardunha) ou na pasmaceira dos dias passados na solidão de que mora na floresta, as horas eram passadas na companhia dos pais e da minha irmã três anos mais nova. 

Aos domingos à tarde, quando as temperaturas o permitiam, trazíamos o rádio para as escadas da casa e sintonizávamos a onde média da Rádio Altitude. Apesar de na aldeia as tardes de domingo serem propícias aos bailaricos no salão paroquial, eu permanecia na serra e ouvia os discos pedidos ( sim, naqueles anos a telefonia também dedicava discos e aproximava pessoas ou era remédio contra a solidão!) ao lado da mãe Patrocínia.

Levantávamos o volume do Rádio e mesmo que meus pais se entregassem à rega, à sacha ou às tarefas do campo, havia a certeza de que nenhum de nós perderia o programa emitido a partir da cidade mais alta.

Também havia momentos de pura empatia. Eu e a mãe chegávamos a cantarolar juntas. Às vezes também me sentava na perna direita de meu pai que guardava a esquerda para a mana Paula e fazia cavalinho connosco.

Ali ficávamos a contemplar a paisagem verde, às vezes já com tonalidades de verão e outono, e a receber do mimo incondicional dos progenitores.

"Lady Laura" é uma dessas canções intemporais que, além de um saudosismo profundamente melancólico, me faz recuar ao tempo em que sendo criança me fiz adulta e mulher precoce.  Interiorizava o significado de cada uma das quadras da canção interpretada pelo lendário musico que neste 19 de abril de 2017 regressa a Portugal para um concerto que há-de ser memorável.

Às vezes, ou muitas vezes, as canções devolvem-me a lembrança dos dias andados, dos caminhos cruzados com a Gardunha ou outras paragens bem mais planas mas igualmente pejadas de boas lembranças a ouvir as canções do Rei.

E aqui vos deixo outra

https://www.youtube.com/watch?v=54xxnkXqltw

E mais outra

https://www.youtube.com/watch?v=3fuzoSGTNOo

Por razões diferentes são canções com memória.





sexta-feira, março 24, 2017

Uma Ode à Casa do Barro

Bom Dia!
Não Basta Olhar.
É preciso falar!
As palavras ditas por uma septuagenária quebraram o longo silêncio no curto passeio do final da manhã primaveril no Telhado.
A viagem concretizada por via de uma visita de estudo à Casa do Barro tinha permitido perceber que nesta como noutras aldeias da Beira a vida faz-se devagar e na calmaria do calendário que à hora certa leva as pessoas para as empresas longe da terra do barro ou do berço do poeta Albano Martins.
Num povoado com cerca de 600 habitantes o ofício outrora dedicado à olaria é agora preenchido noutras paragens e geografias porventura menos poéticas.
Enquanto muitos saem de manhã para voltar ao por do sol preenchendo a jornada em busca do ganha pão na terra do barro, onde a linguagem poética vai além da "Torre das Palavras", permanecem os residentes com mais idade.
Uma espécie de Sol Nascente que transporta o transeunte para a esperança que olhar alcança no verde esperança que caracteriza os campos verdejantes e a perder de vista.
Enquanto o relógio avança e a senhora Maria arruma a casa e coloca a roupa da cama à janela, há um punhado de crianças de tenra idade que invade a pacata aldeia e semeia a alegria de viver. As ruas silenciosas que nos anos trinta do século XX foram calcorreadas pelo poeta das paisagens voltam a ter vida mesmo quando as crianças da escola primária, que resiste à desertificação humana, estão naquele instante em horário lectivo.

São dezenas de miúdos (as) acabados de chegar do Fundão que é cidade das cerejas e foi berço de outros poetas e homens que semearam as palavras que desde sempre inscreveram a terra de José da Cunha Taborda ou de José Alves Monteiro na paisagem literária e instruída da Cova da Beira.
É então que apetece comparar a energia contagiante da miudagem ao desabrochar das flores.
A correr e saltar, cheios de curiosidade vão ao encontro do barro e dos ofícios que há muitos anos foram sustento maior para as gentes do Telhado. Ali descobrem a importância da olaria numa casa temática que os ajuda a compreender a metodologia de trabalho, as peças e a roda do oleiro que chega a entusiasmar a educadora Amélia Nunes.
Portadora de um vasto leque de conhecimentos relacionados com oralidade, etnografia e tradições Amélia Nunes é como peixe dentro de água. Embora teime em recusar a publicação de tanta sabedoria popular é nela que as crianças de 4 e 5 anos se focam para, através dos sentidos, se apaixonarem pelas rotinas da olaria.
Amélia parece uma profissional de turismo e explica ao Rodrigo, ao Gonçalo ou à Maria o bê à bá da olaria e das utilidades criadas pelo labor dos oleiros cuja criatividade e sentido empreendedor transformou o barro em tigelas, potes, cântaros, gamelas e tachos ou até nas coelheiras.
Imagine o leitor a cara de estupefação da criançada quando ouviram Amélia contar-lhes que naquela peça poderiam habitar coelhinhos.

E depois vieram os Rostos da Memória, memorial dedicado aos muitos oleiros cujo labor de uma vida de dedicação permitiu gerar riqueza e o património imaterial às vezes plasmado nos livros e na linguagem poética que vai muito além do percurso literário de Albano Martins e que também convoca o visitante do Telhado a conhecer essa valiosa "Torre das Palavras" que é contígua à Casa do Barro onde as crianças do Fundão meteram as mãos no barro.
E diz o poeta :
"De barro somos, dizem os oráculos, solicitas vozes do crepúsculo ou das manhãs solenes, rituais (...)"

sexta-feira, janeiro 27, 2017

O exemplo da Liga dos Amigos do Tortosendo

No outro dia o meu programa de rádio saiu do estúdio da Rádio Cova da Beira e foi ao encontro de um conjunto de jovens e dirigentes que dão vida a uma das mais emblemáticas coletividades da vila do Tortosendo no concelho da Covilhã.

Foi o entusiasmo do recém-eleito presidente da Liga dos Amigos do Tortosendo, Eduardo Alves, que me fez ir à descoberta daquele espaço mágico, localizado bem no centro da vila operária, para perceber das intenções e projetos de futuro.

A história e as memórias de uma “família” que já reúne à volta de 800 membros é uma realidade que bastante orgulha Manuel Carrola, sócio fundador da organização que hoje é um pulmão de cultura.

A Liga dos Amigos do Tortosendo é-me bastante familiar por via do dinamismo de duas mulheres com quem tenho tido o privilégio de me cruzar neste percurso entre as notícias e a movida cultural da região. As professoras e amantes dos livros Merícia Passos e Adélia Mineiro.

É esse registo cultural que tão bem caracteriza a Liga dos Amigos do Tortosendo que continua a marcar o registo na simpática e acolhedora coletividade que até sabe descentralizar a ação e envolver os parceiros.
Basta lembrar o último Natal quando a filósofa e escritora Vanessa Martins escreveu o conto “O Frio do Menino Jesus” que além de ter sido ilustrado pelo artista Tó Pê teve a particularidade de chegar à mão das crianças da vila.

Uma iniciativa da Liga que foi apadrinhada pela Junta de Freguesia local, entidade que tudo fará para contribuir para o bem-estar e felicidade das 250 crianças do Tortosendo. E não é “coisa” pouca admite o autarca David Silva que no decurso do Porque Hoje é Domingo – o programa que passa aos domingos de manhã na telefonia, anunciou que haverá de convidar Vanessa a escrever a história do Tortosendo para crianças.

É fantástico este entusiasmo de quem sabe como a complementaridade e a partilha de recursos são hoje uma das regras base da sobrevivência dos povos e suas entidades e organizações tantas vezes habituadas a fazer muito com poucos recursos.
Boas-práticas adotadas pela Liga dos Amigos do Tortosendo que com a ajuda de outros parceiros públicos e privados conseguiu promover uma belíssima exposição de retratos do jovem pintor do Tortosendo Guilherme Ramos.

“Rostos”. Assim se chama a mostra que pode visitar num espaço cedido pela Gráfica do Tortosendo e na qual o também estudante de belas-artes dá expressão mágica a muitos dos exercícios das aulas.
Um encontro feliz com as artes na vila que ainda no último Verão brindou a comunidade regional com o Urban Art do Tortosendo que até homenageou o malogrado Zéca Afonso.

Símbolo de uma identidade que enriquecerá os próximos exemplares do Boletim Informativo da LAT que lá para setembro chegará à centésima edição. Nessa altura a publicação terá “um selo de qualidade”, promete David Silva que através da Junta de Freguesia local continuará a patrocinar atividades que muito enriquecem as comemorações dos 90 anos da elevação do Tortosendo à categoria de Vila.