segunda-feira, agosto 14, 2017

Um concerto com memória

O contador de histórias, Jorge Serafim foi o anfitrião do espetáculo que o coletivo “Tais Quais” apresentou no largo do Calvário na cidade do Fundão numa das mais concorridas noites do Festival Cale&SangriAgosto.

Conhecedor da região onde regressa com alguma frequência para o TeatroAgosto - festival internacional de teatro ao ar livre, Jorge Serafim cativou a plateia com as suas histórias e humor que, de tanto nos fazerem rir, provocam dores no maxilar.

Serafim foi uma espécie de narrador da viagem pela música tradicional alentejana dando entrada aos temas. Cada um mais fantástico que o outro!

Parecia uma noite de canções ao desafio pois os milhares de espectadores deixaram-se envolver no alinhamento do espetáculo que além de Jorge Serafim reuniu no mesmo palco João Gil, Vitorino, Tim, Paulo Ribeiro, Sebastião Santos e Celina Piedade mais Vicente Palma que, a meu ver, fizeram a diferença pela mestria que os caracteriza no toque do acordeão e do piano, respetivamente.

Desconheço se Vicente veio para substituir Jorge Palma que aparecia na formação inicial dos “Tais Quais” mas tenho a certeza que o público que o viu no Teatro Clube de Alpedrinha em dezembro de 2016 confirmou ontem no Fundão o adágio popular que diz “filho de peixe sabe nadar”.
Ao talento de Vicente Palma e Celina Piedade junte-se o não menos performativo e inspirador Sebastião Santos. Na voz e na bateria, o filho de Tim também fez a diferença.
A interpretação do tema “Algibeira” do disco de estreia da banda fez a diferença num espetáculo de matriz alentejana que nos permitiu ver e ouvir Tim dedilhar a viola campaniça ou Paulo Ribeiro interpretar, em modo cante, o tema “circo de Feras” dos Xutos e Pontapés.

Foi uma noite de forte empatia entre músicos e público de todas as idades, com expoente máximo na interpretação de lendários temas de Vitorino como “Menina estás à Janela”. O projeto “Rio Grande” também foi revisitado na interpretação de “Postal dos Correios”.

A atuação dos “Tais Quais” no Fundão ficará na memória dos espetadores como um dos mais divertidos e concorridos concertos de um passado recente. Daqui a uns anos ouvir-se-á falar da noite em que o covilhanense João Gil partilhou, a partir do palco instalado nas proximidades da antiga Casa do Bico (Estalagem da Neve), com a plateia a memória de conversas antigas partilhadas à mesa do convívio com dois homens cuja memória valoriza o passado de história, vivência e comunhão de vontades de António Paulouro e António Morão.


Um e outro já não estão entre nós. Mas os que lhe foram próximos, e seus admiradores seguidores, haverão de estar contentes por saber que nesta geografia, às vezes esquecida e tão pródiga a desvalorizar os nossos, ainda há quem se lembre das vozes discordantes e portadoras de um assertivo ideal de liberdade de pensamento. 

#Foto de Miguel Proença 

quarta-feira, agosto 09, 2017

Subir à Estrela num dia de Verão

O calor de uma quinta-feira de agosto convoca quem está de férias a refrescar-se nas paradisíacas praias fluviais da Beira Interior, a ficar na piscina lá do burgo ou na do hotel mais próximo. Naquele 3 de agosto o desafio imposto pela curiosidade passou por subir ao alto da Torre em plena serra da Estrela.
Às nove da matina em ponto a “tropa” saiu de casa entrou no carro da condutora insegura mas audaz e fez-se ao caminho. 
Ainda na cidade do Fundão deu-se conta da forte presença de emigrantes que por estas semanas acrescentam movimento e valor à cidade e economia local.
Embora muitos comerciantes digam que os emigrantes que passam o ano na Europa já não vêm tão abonados como antigamente e também já não deixem na banca portuguesa as divisas de outrora, a verdade é que numa cidade de pequena dimensão como o Fundão a presença dos emigrantes faz toda a diferença.
Não sabemos se vêm os tais cerca de 25 mil de que falava há uns dias o autarca local, quando aludia à forte componente de emigração que caracteriza o concelho do Fundão, mas sabemos que o pico do Verão coincide com mais gente, por exemplo, no mercado da segunda-feira.
E este é, pois, um tempo em que as nossas aldeias e vilas reganham vida e até atingem um certo patamar cosmopolita. É também essa realidade que o viajante encontra quando, como comecei por contar, se propõe subir à Estrela num dia de Verão.
Se nas Penhas da Saúde o café, momento de caminhada e reencontro com a memória foi quase solitário, dada a ausência de pessoas nas imediações do hotel "Serra da Estrela" ou do Clube Nacional de Montanhismo, mais acima começamos a cruzar-nos com carros de matrícula estrangeira.
Primeiro os espanhóis. Sim, o país vizinho continua a gostar do nosso sol e mar mas também se interessa pela montanha. Foi isso que constamos no belíssimo e requintado “Soadro do Zêzere” em Valhelhas onde almoçamos principescamente e por um preço razoável.
Mas a Estrela também é ponto de encontro de emigrantes. Sobretudo os franceses e suíços. Lá os encontramos no alto da serra da serra da Estrela! 
Ora para a foto de família e recordações de outras visitas ora para o reencontro com os produtos tracionais da região.
Alias quem entra no Centro Comercial da Torre é rapidamente convocado a provar a deliciosa regueifa, o tradicional queijo da serra ou os paios, presuntos e lombos embalados em vácuo.
Nesta altura do ano o movimento de turistas na Estrela cai para menos de metade. Ainda não existem programas nem atrativos para a serra fora do tempo da neve e talvez isso explique o decréscimo de turistas no cartaz chapéu do turismo na região.

Nada que desanime quem tem no Centro Comercial da Torre a rotina de uma vida inteira. Mas nem só de produtos típicos se faz a oferta comercial. Hoje em dia é bastante comum encontrar utilidades como atoalhados e panos com dizeres alusivos a serra. Foram esses recuerdos que muitos espanhóis terão levado para pais de origem. Souvenirs que muito ajudam a manter o mercado da saudade. Mas também há os "borregos" que no Inverno aquecem os pés, os casacos ou samarras e ainda os gorros que podem ter dizeres alusivos à serra ou ao clube de futebol de maior expressão dentro e fora de Portugal. É no mercado da saudade que muitas vezes se cruzam portugueses oriundos de várias paragens e que no Verão regressam sempre às origens. 
Observam então a geografia de berço, renovam abraços e estimulam os afetos "adormecidos" no Verão transacto. É também nesta altura do ano que muitos dos nossos regressam aos locais paradisíacos dos territórios para retemperar energias e embebedar-se na beleza das paisagens verdejantes e na frescura das águas límpidas do rio ou da ribeira mais próxima.
Naquela manhã de agosto o viajante fez-se ao Covão d`Ametade e foi com um sentimento de indignação que se deu conta do abandono a que está votado um lugar que tantas vezes escolheu para convívios e lazer pois sempre o encontrou limpo e verdejante. 

E permanece verde. Mas não está limpo e os equipamentos votados ao abandono estão destruídos, danificados, sujos. Irreconhecíveis! Será este um retrato apenas do vandalismo ou as mazelas resultam da falta de vigilância e do desapego dos senhores do Parque Natural da Serra da Estrela? Pensar que o Covão d`Ametade foi classificado como Local de Interesse Geológico! Mas alguém se interessa?

Fica o recado para quem o quiser interiorizar. E o mesmo é válido para os gestores do Centro Interpretativo da Serra da Estrela localizado no alto da Torre e permanentemente fechado.
Aberto estava, em Valhelas, o restaurante "Soadro do Zêzere" onde o proprietário nos recebeu com uma educação e elegância pouco regulares na receptividade a quem visita o coração da Estrela.



Valeu a pena "cair da cama" e fazer de um dia de Verão um passeio pelos trilhos da serra onde desta vez não houve disposição e força anímica para subir ao Cântaro Magro ou fazer escalada na Parede dos Fantasmas.
Também não me cruzei com o pastor que há cerca de vinte anos me contou todos os segredos associados ao pastoreio de cabras e ovelhas. 
Talvez o tivesse encontrado se o tivesse procurado nas imediações da casa da ASE- Amigos da Serra da Estrela onde outrora descobri sons e "tarântulas" e me aqueci à lareira da casa abrigo.  

Talvez....
Talvez a proteção e vigilância da floresta tivessem ajudado a prevenir os incêndios que há alguns anos devastaram o Vale Glaciar do Zêzere. 
Será o leitor capaz de imaginar a melancolia que nos invade a alma quando num regresso a Manteigas nos apercebemos da erosão dos solos e da destruição da riqueza da serra? 
Fica a pergunta.