sexta-feira, dezembro 21, 2018

No Reinado de Vales de Pêro Viseu


Uma promessa para prevenir uma praga ligada ao olival é o mote para uma tradição centenária que “não deve ser massificada” mas que traduz a forma como gerações de naturais de Vales de Pêro Viseu se dedicam à memória que “importa perpetuar”.


António Henriques Duarte tem 98 anos, é provavelmente o mais antigo habitante de Pêro Viseu e lembra-se desde sempre do Reinado. Uma tradição de Natal que se repete a cada dia 25 de dezembro na anexa da freguesia. Depois da hora de almoço, no dia de Natal, o largo em frente à capela de São Bartolomeu em Vales de Pêro Viseu ganha vida pois as pessoas daquela aldeia concentram-se à volta do que resta da fogueira da noite de consoada e ali degustam as filhoses oferecidas pelos mordomos que no ano anterior foram escolhidos para manter a tradição do Reinado.

“Uma tradição genuína que valoriza a nossa terra no período do Natal” descreve o autarca local. Para Pedro Mesquita “o mais importante é honrarmos a memória de todos os que já contribuíram para a realização desta tradição e incutir nos mais novos a autenticidade da mesma”. O Reinado assume-se, por isso, como um momento de confraternização entre pessoas de todas as idades que gostam da partilha e preservação das tradições locais. E os locais têm uma vaga memória da origem da festa. Há até quem afirme que num ano em que não promoveram o Reinado, “a aldeia ficou cheia de uma praga de bichos que queimou as folhas das oliveiras”. “As folhas estavam todas cruzadas”, contou ao Jornal do Fundão Ana Milheiro, natural de Vales de Pêro Viseu.
João Marçalo é desde há quatro anos sacerdote naquela paróquia e além de corroborar a estória da septuagenária Ana Milheiro enquadrou a tradição: “Nasceu associada a uma outra tradição das festas de São Sebastião e tem a ver com questões de pestes, estando muito ligada à crença das pessoas que neste caso não é o São Sebastião – como acontece em Janeiro de Cima ou na Póvoa de Atalaia, só para citar algumas - mas sim ao Santo Estevão”. “Houve uma peste que afetou as oliveiras que começaram a deixar de dar azeitona e junto à capela criou-se uma praga. E foi então que, de forma coletiva fizeram a promessa de todos os anos no dia de Natal realizarem um momento de oração”. Seguem-se a prova das filhoses e a “eleição” dos novos mordomos, uma procissão à volta da capela e beija-se o Menino Jesus. Esta não é a única tradição de Natal na Pêro Viseu. Além do madeiro, no dia 24, desde 2013 que na freguesia se realiza um mercado de Natal. É sempre no segundo fim-de-semana de dezembro.


* Texto originalmente publicado na edição de 20 de dezembro do Jornal do Fundão

quinta-feira, dezembro 13, 2018

Do Agasalho à Tecnologia


Apaixonou designers e criativos. É muito mais que um agasalho. Habitualmente utilizado na decoração de interiores e mobiliário, o produto serrano é também matéria-prima para sapatos e ferramentas tecnológicas. A Microsoft, esse gigante da informática, rendeu-se às características do tecido tradicional que agora “agasalha” os tablets. 



À descoberta do burel. Poderia ser este o título do texto no qual nos propomos partilhar com os leitores o percurso de inovação que caracteriza o tecido artesanal português totalmente feito de lã. “Depois de carmeada e cardada, a lã transforma-se em mecha. A mecha é torcida na fiação e transforma-se em fio. O mesmo se passa pela urdideira originando a teia. O tear transforma a teia em xerga. A xerga passa pelo batano e por outros tratos e transforma-se finalmente em burel”. Explicações plasmadas numa folha de sala dedicada a trabalhos em burel.

Já as características técnicas e diferenciadoras do tecido “resistente e versátil” conferem ao burel mais que a garantia de aconchego. As experiências à volta da sua textura, padrões e cores transformam-no numa panóplia de oportunidades e peças diferenciadoras que enriquecem o portefólio criativo de quem desejava afirmar-se na decoração de interiores e na valorização de algo que para muitos não passava de um tecido grosseiro e rústico apenas utilizado pelos pastores.

Cabeceiras de cama, painéis de parede, quadros, corredores de mesa, capas de almofadas e uma multiplicidade de peças utilitárias são hoje uma realidade na utilização do burel. E até já há sapatos e ténis em burel! No ano passado uns ténis feitos com burel e produzidos pela Burel Factory, uma empresa de Manteigas, receberam um prémio de inovação, numa das maiores feiras mundiais de desporto, em Munique, na Alemanha.

Também em Manteigas, a Burel Factory, começou em 2013 a “vestir” o tablet PC da Microsoft. Nessa altura o Jornal de Negócios escrevia que o burel renasceu em Manteigas, para "aquecer" o mundo.

Ainda em Manteigas nasceu em 2017 a marca de sapatos REALIS. Cada par transporta em si a lã “cem por cento de ovelha” e a garantia de “resistência à humidade e repelência à água”. Bruno Silva e Marlene Gabriel são os empreendedores. Procuraram investir na criação de um produto que tivesse a sua génese no território em que habitam, que ainda tivesse pouca expressão no mercado e utilizasse matérias-primas locais, neste caso o burel originário da região. “Podemos dizer que o burel se comporta de alguma forma como uma membrana sintética de gore-tex, mas de uma forma natural”, explicaram ao JF. 



Prevê-se que a marca desenvolva novos projetos em 2019, nomeadamente na captação de novos mercados na Europa e em termos de criação “iremos lançar novos modelos de senhora e lançar a coleção de homem”. Para já os sapatos Realis são usados “por alguém famoso mas não devemos revelar o nome”.

Mas nem só a norte se reinventa o burel. O criador de moda Miguel Gigante, foi pioneiro nessa arte. A partir do “Atelier do Burel” instalado na antiga fábrica António Estrela na Covilhã e hoje transformada no laboratório criativo “New and Lab”, Gigante transforma o burel em casacos, coberturas de mobiliário, candeeiros, malas, almofadas, alfinetes de lapela e chapéus.

“Iniciei o projeto em Setembro de 2008, mostrei pela primeira vez as primeiras peças no Chocalhos - Festival Caminhos da Transumância em Alpedrinha. Tinha tudo a ver, celebrar a transumância”, descreve o artista capaz de transportar para as suas peças a “essência e alma femininas”, dizem os apreciadores de moda que se habituaram a ver Miguel Gigante como um visionário na arte de dar nova vida à lã das ovelhas. O artista começou por fazer painéis, candeeiros, almofadas alguns acessórios e um casaco.



“Cansado da confeção e de trabalhar a moda” Miguel Gigante deixou-se envolver na descoberta e conceção de obras  para casa. “Ironicamente a peça que teve um sucesso considerável foi o casaco ainda hoje é uma peça desejada pelo mercado”, confessa-nos.

“Sempre gostei mais de criar peças de Outono-Inverno. Inicialmente, fazia experiências, protótipos sem qualquer tipo de pressão”, conta-nos. Para Miguel Gigante o que distingue o burel de outros tecidos é a própria “construção técnica e os princípios que sendo a antítese da indústria atual são a garantia de padrões de qualidade cada vez mais raros”. “A resistência e impermeabilidade são os mais conhecidos, o isolamento de som e temperatura também são fatores de valor”.

Numa avaliação à relação qualidade preço na escolha de uma peça em burel em  detrimento de outros tecidos, Gigante lembra o “composto só de lã bordaleira” enquanto garantia de “proteção do frio e o conforto” de um tecido 100% natural. Características “cada vez menos comuns na confeção tradicional três vezes mais cara e com menos durabilidade”, adverte.

A partir da Covilhã, Miguel Gigante pretende continuar a afirmar um produto que identifica um território e que em 2013 lhe valeu a assinatura de peças no âmbito do projeto Aldeias Históricas de Portugal. “Uma coleção de roupa inspirada na arquitetura, lendas e tradições dos tempos medievais e composta por casacos, saia, camisolas e acessórios diversos”. Detentor de uma carteira de clientes espalhados pela Europa, Miguel Gigante apresenta regularmente as suas peças em eventos ou em lojas que vivem do mercado turístico.

Ana Gonçalo é designer têxtil há vinte anos mas só há quatro anos, a partir do CINCO atelier, iniciou a experiência no burel. “A minha primeira peça foi uma clutch. Foi o modelo que mais me motivou. Como nunca tinha trabalhado com esse tecido, foi um desafio enorme”, partilhou com o JF a designer que há uns anos esteve em foco por ter concebido a nova linguagem e imagem de marca da Covilhã. “A Tecer o Futuro”, Ana Gonçalo coloca em cada peça que faz um pouco de si. Motiva-se sobremaneira de cada vez que dá corpo a uma nova “carteira de ombro que, além do trabalho de modelação e costura, tem bordados em fio de lã e crochet no mesmo fio”. “Eu gosto de misturar técnicas, tornando a peça mais rica e apelativa. 

O burel é um tecido que tem bastante corpo, tornando o processo de modelação das peças bastante motivante. Como é um material denso que foi "batanado", conferindo propriedades de feltro, ele não desfia nas extremidades, quando cortado”. E isso permite-lhe "pensar" nas peças com maior ambição. Mas desengane-se quem pensa que construir uma peça de burel é fácil! 

“É um tecido muito espesso, difícil de costurar peças complexas...antes de pensar na peça que quero realizar tenho de pensar muito bem e testar algumas costuras e moldes”, revela-nos. Considerando que a lã de ovelha é incomparavelmente mais valiosa que um qualquer outra matéria-prima sintética, Ana Gonçalo congratula-se por observar como o burel, de tão valorizado e cheio de possibilidades, devolveu emprego a muitas pessoas que assistiram à crise dos lanifícios.

Da Covilhã para o Fundão encontramos o “Adelma Atelier”. Desenvolvido por Lina Ferreira, o projeto de aproveitamento e transformação do burel teve início há quatro anos e as primeiras criações foram das a conhecer ao público na 5ª edição do "Pechakucha", exatamente no Fundão.


Ao JF a criativa fala do empenho e dedicação que coloca em cada peça que produz. Apreciadora de tudo o que seja português, genuíno e icónico,  Lina Ferreira diz que “não poderia deixar de usar o burel” nas suas coleções. Apesar do ainda curto percurso, Lina Ferreira orgulha-se do prémio “melhor peça de artesanato”, conquistado na edição de 2014 do Festival chocalhos. “Um prémio e reconhecimento do júri que avalio um casaco comprido confecionado em burel, lã bordaleira e tecido de cortiça”.  



Além do vestuário, o burel está presente nos acessórios de moda e algumas peças decorativas como mantas, tapetes e almofadas, assinados por Lina Ferreira. No entanto e na área da decoração o burel permite desenvolver “ambientes rústicos e acolhedores”, considerou.
O “Adelma Atelier” no Centro Comercial Cidade Nova, no Fundão, dispõe de algumas peças no Hotel H2O em Unhais da Serra.

Texto originalmente publicado na edição de 6 de dezembro de 2018 do Jornal do Fundão.

terça-feira, novembro 06, 2018

"Em momentos de adversidades somos uns heróis"


O Enfermeiro do Ano 2018 participou como especialista em reabilitação em “seis campeonatos da europa e três mundiais” e por essa razão considera-se um embaixador da região. “Nesses destinos há embaixadores de Portugal e ficam a saber que há um covilhanense na comitiva”. “Honrado” pelo reconhecimento da Ordem dos Enfermeiros, António Fonseca acredita que o troféu motivará “uma classe que deve ser valorizada”, sobretudo num momento de “enormes dificuldades instaladas”.



Descreve-se como “humilde e determinado”. Os seus pares valorizam-lhe a “liderança” e “dedicação”. “Vive a enfermagem com paixão”. O gosto pela enfermagem descobriu-o ainda nos bancos da escola e teve o primeiro impacto no final da década de setenta do século XX quando decidiu estudar enfermagem na Escola Superior de Saúde Lopes Dias em Castelo Branco. Iniciou a carreira, em outubro de 1980, no antigo Hospital da Covilhã como enfermeiro no serviço de urgência. Seguiram-se cinco anos de atividade no bloco operatório e uma especialização de três anos, em enfermagem de reabilitação, que lhe valeu subir na carreira e abraçar a ortopedia.

António Manuel Santos Fonseca, o Enfermeiro do Ano 2018, foi distinguido pela Ordem Regional dos Enfermeiros do Centro no dia 20 de outubro. Nasceu no berço de uma família humilde - o pai era tecelão e a mãe metedeira de fios –, no bairro dos Pinhos Mansos, no Tortosendo. Aos 58 anos e na “antecâmara da reforma” António, que tem dois filhos também eles a trabalhar na área da saúde, não esconde que a esposa (Vera Fonseca) é o seu “maior suporte”. Agradece-lhe a “cumplicidade e entrega” mas também dedica o prémio a “toda a minha equipa” do Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB).

O reconhecimento pelo empenho do enfermeiro-chefe no Serviço de Ortopedia do CHCB, hospital onde exerce há 38 anos, também valoriza o percurso iniciado há 15 anos na Federação Portuguesa de Futebol (FPF) enquanto enfermeiro especialista em reabilitação e ao serviço da Seleção de Portugal de Futsal. Fonseca integra a equipa médica, constituída por um médico, um enfermeiro e um fisioterapeuta, que em fevereiro último celebraram o título de Campeão Europeu de Futsal.

Com 38 anos de enfermagem e 34 de desportista, António lembra o começo do percurso desportivo no Sporting da Covilhã bem como a atividade desenvolvida no Teixosense, na Associação Desportiva da Estação e na Associação de Futebol de Castelo Branco (AFCB). A prática de enfermagem nos clubes da região e o trabalho de formação realizado na AFCB “foram determinantes” na ida para a FPF onde chegou em 2003.



Em declarações ao Jornal do Fundão António Fonseca vinca que os enfermeiros são uma “peça fundamental” na valorização da pessoa, recordando o tempo em que realizou apoio domiciliário junto de doentes em ortopedia. “A enfermagem e reabilitação” são importantíssimas na “recuperação integral da pessoa”. Sobre o atual momento da enfermagem António Fonseca é perentório. “Há um desgaste dos profissionais de enfermagem inerente às dificuldades que são do domínio público”. 
E como é trabalhar sob pressão, salvar vidas humanas ou preparar atletas para desafios de futsal? “Na ortopedia e ortotraumatologia há doentes penosos para a missão de cuidar dos enfermeiros. São situações que deixam marcas”. Por outro lado, “não podemos falhar”. Na preparação logística António tem “a responsabilidade de elaborar as listagens dos recursos materiais necessários para os grandes desafios”, conta-nos.

Sublinhando a componente humana do cuidador, António admite que quando se reformar escreverá um livro sobre aprendizagem e experiências. “Na minha vida tenho muito boa comunicação com quem me cruzo, desde profissionais e famílias. São histórias que poderão ser uma referência para quem pretenda enveredar por esta área”. Além da formação de base, António Fonseca considera “importante a permanente atualização de conhecimento” em matérias que, acredita, despertarão interesse nas novas gerações de profissionais de saúde.

Na abordagem jornalística para darmos a conhecer o percurso do Enfermeiro do Ano, importa escrever que António Fonseca não esquece as origens. Aliás, as suas palavras denotam orgulho na Cova da Beira e na Covilhã que “no estrangeiro associam à serra da Estrela”. Fala da Universidade da Beira Interior como “relevante na abertura de horizontes” destacando o departamento de desporto na pessoa de Bruno Travassos. “Depois há o José Luís Mendes com uma trajetória muito bem estruturada. O mesmo acontece com o Joel Rocha um outro grande amigo que foi meu jogador na ADE. Gente de muita qualidade e potencial para vingar em outras latitudes”. 

E quanto ao futuro e aos sonhos que ainda não concretizou? – “Noutro contexto eu gostaria de ter integrado o departamento médico na UEFA ou na FIFA”. Um sonho que será sempre “para uma pessoa mais nova”, afirma o nosso interlocutor.


#Texto integralmente publicado na edição de 01 de novembro de 2018

terça-feira, outubro 16, 2018

“O porquinho mealheiro é o pior exemplo de poupança”


Há quem o apelide de senhor poupança pois o programa “Contas-poupança” na televisão reforçou-lhe o mediatismo. Semanalmente no ar há 8 anos, “Contas-poupança” deu origem a dois livros sobre economia pessoal e familiar. O segundo está nas bancas há pouco tempo e serviu de mote a um conjunto de questões ao jornalista covilhanense Pedro Andersson.


Perfil

Jornalista há mais de 20 anos, Pedro Andersson iniciou o contacto com os media era ainda adolescente. Começou na Rádio Clube da Covilhã, foi jornalista na rádio TSF entre 1997 e 2001, altura em que foi convidado para ser um dos jornalistas fundadores da SIC Notícias. Atualmente, na SIC é jornalista-coordenador e autor da rubrica sobre finanças pessoais "Contas-poupança", emitido todas as semanas há mais de 8 anos.
É autor de 2 livros sobre finanças pessoais: "Contas-poupança - Viva melhor com o mesmo dinheiro" (2016)  e "Contas-poupança - Poupe ainda mais, Invista melhor" (2018).





1- Está nas livrarias um novo "Contas-poupança". Significa que os seguidores do programa da SIC estão mesmo a seguir os conselhos deste SOS poupança escrito por Pedro Andersson?

Pelos vistos, sim. Isso deixa-me muito feliz. No princípio até achava que algumas dicas eram demasiado simples e que as pessoas iam criticar-me porque estava a dizer coisas óbvias. Mas não. Há uma imensidão de pessoas que de facto precisam dos conselhos SOS de finanças pessoais, poupança e investimento. Eu chamo a esses conselhos "terapia de choque financeira". Há dezenas de milhares de pessoas que precisam mesmo de ajuda para porem as suas contas em ordem. Encaro isto como uma espécie de missão mais do que jornalística, de cidadania. Infelizmente, em Portugal quase ninguém tem formação financeira básica para fazer contas, comparar, negociar e lidar com as empresas, instituições e com o Estado de igual para igual. Parecemos sempre muito pequeninos e impotentes. Aceitamos o que nos dizem sem questionar. Isso tem de acabar.


2-Dois livros. O que separa o primeiro do segundo? O que os distingue?

Duas coisas separam o primeiro do segundo.  São dois anos de dicas rigorosamente novas que surgiram depois de ter escrito o primeiro livro. Ou seja, estão sempre a surgir novas oportunidades de pouparmos. As dicas de poupança surgem debaixo das pedras, como costumo dizer. Estou a fazer uma reportagem e é o entrevistado que diz: "Olhe, e já reparou que também pode poupar nisto e naquilo?". Isto quer dizer que o trabalho do "Contas-poupança" é interminável. Há sempre maneiras novas de termos o mesmo (ou de preferência melhor) com o mesmo dinheiro ou menos. Esse é o meu desafio em todas as reportagens. Não é poupar vivendo pior. O que é desafiante é conseguirmos viver melhor com menos dinheiro. E a existência do "Contas-poupança" prova que isso é possível. No segundo livro, há também uma vertente completamente nova: a do investimento. Percebi que não vale a pena poupar se não soubermos para que queremos o dinheiro. Temos de o fazer crescer senão ele vai definhando. A ideia do porquinho mealheiro é o pior exemplo de poupança. É o contrassenso absoluto.  Ao prendermos o dinheiro numa coisa parada estamos a deixar o dinheiro desvalorizar. Eu posso ter 10 mil euros e daqui a 10 anos esse dinheiro só vai valer 5 ou 6 mil, embora lá tenha os tais 10 mil. A inflação come o nosso dinheiro, mas como não o vemos desaparecer fazemos de conta que a inflação não existe. Qualquer produto de poupança que renda menos de 1,6% está a "matar" o nosso dinheiro. No livro dou variadíssimas alternativas de investimento - com risco e sem risco - para poder escolher de acordo com o seu perfil. Para mim, que nunca investi em produtos com risco, foi uma surpresa absoluta o que ganhei nos meses mais recentes com pequenos valores que investi para testar as reportagens. 

3-Em que medida é que os alertas do programa e do livro têm contribuído para formar o consumidor? 

Os consumidores portugueses estão cada vez melhor informados e formados. Já sabem ao que vão e fazem cada vez mais perguntas. E reclamam por escrito, coisas que raramente faziam no passado. E já vão ter com as empresas e instituições com os olhos mais abertos. Já sabem o que querem e, melhor do que isso, o que não querem. A palavra não está a entrar na linguagem do consumidor e isso é uma vitória enorme. Ir a um banco, receber uma simulação e dizer não ao funcionário do banco deve ser um choque para alguns desses funcionários. No passado, o que o gestor de conta dizia era lei para nós. Agora já percebemos que os gestores de conta estão a trabalhar para atingir os objetivos do banco e não para defender os nossos interesses.

4- Parece-lhe que os conselhos dados têm sido acatados pelas grandes marcas e prestadores de serviços vários?

Não muito. Noto algumas diferenças, mas só porque são obrigados pelas autoridades de supervisão e pelos reguladores. A pressão da comunicação social (nomeadamente do "Contas-poupança") tem a sua influência mas apenas isso. Já houve empresas que melhoraram o apoio ao cliente ou clarificaram algumas regras por causa do programa, mas ainda é uma coisa insípida. O verdadeiro trabalho está nas mãos de cada consumidor. Tem de ser uma "batalha" corpo a corpo, consumidor a consumidor, porque cada caso é um caso. O consumidor só deve desistir de uma reclamação quando estiver satisfeito com a resposta. É essa a mensagem que quero passar. Nem que demore 10 anos.

5-Quais são as áreas em que nós, os consumidores, somos mais negligenciados?

Somos muito negligenciados pelas grandes empresas e pelo Estado. Quando fazemos um pedido de esclarecimento ou fazemos um pedido ou uma reclamação, mandam uma resposta chapa 5 do tipo "Gostamos muito de si, é muito importante para nós e vamos analisar..." e passam semanas e não acontece nada. Isso é trágico e tem de mudar. Por vezes a única solução é avançar para o Provedor de Justiça e os Centros de Arbitragem.

6-Como observa o poder de compra dos portugueses?

Nesta fase está a melhorar. A crise foi muito grave e deixou mossa. Mas estou a ver demasiadas pessoas a esquecerem rapidamente o que podiam ter aprendido com a crise. Eu aprendi, e muito. Devíamos nesta altura de vacas menos magras estar a preparar a nossa defesa para quando a próxima crise chegar. Porque vai chegar. E não é preciso ser rico para poupar. O segredo é tão simples quanto isto: Nunca gastar mais do que se ganha. Só isso. E se conseguir pôr de lado 10% do que ganha todos os meses assim que recebe o ordenado isso é o ideal. Quem fizer isto estará preparado para tudo o que possa vir a acontecer. Mas não é fácil. O português não sabe poupar e não sabe investir. A verdade é que também nunca ninguém nos ensinou, nem as famílias nem a escola. E  cometemos erros de gestão financeira pessoal desde que nascemos até morrermos. Está na altura de fazer qualquer coisa para mudar esta atitude perante o dinheiro. Temos de perder o medo de falar de dinheiro. Ele não morde. Tanto pode ser nosso amigo como inimigo. Depende de nós.



7-Iniciou o seu percurso de jornalista na imprensa regional como observa o estado do jornalismo?

Sim, comecei na Rádio Clube da Covilhã. O jornalismo está neste momento numa encruzilhada, sobretudo por causa das redes sociais e do digital. Qualquer pessoa pode produzir informação e chegar num segundo a dezenas de milhares de pessoas. E não precisa ser jornalista. O grande desafio do jornalismo hoje é credibilizar-se a ponto das pessoas estarem dispostas a pagar (por assinatura ou assistindo a publicidade) para terem a certeza de que a informação que estão a receber é absolutamente verdadeira e que lhes traz valor acrescentado. Há tanto ruído hoje que o jornalismo tem a tentação de seguir a onda da rapidez da informação sem o rigor necessário e, se o fizer, vai perder a guerra. 


8-Como vai a liberdade de expressão em Portugal?

Muito bem. Creio que não há um problema de liberdade de expressão em Portugal. Felizmente vivemos num país onde essa questão neste momento não se coloca, na minha opinião. Pelo menos no meu caso nunca, em nenhuma circunstância, vi a minha liberdade de expressão enquanto jornalista ou cidadão ameaçada ou atacada. E nos casos em que isso acontece, os tribunais têm funcionado.


9-Natural da Covilhã, como observa a cidade e a região da Beira Interior a partir de Lisboa?

Venho ver a minha mãe regularmente. Ela ainda vive no concelho da Covilhã. Tenho visto a cidade a desenvolver-se e isso deixa-me muito satisfeito. Fico com uma imagem positiva do desenvolvimento da região e do distrito de Castelo Branco, mas só tenho uma visão de passagem. Não posso dizer que acompanhe o dia-a-dia da região. Mantenho o meu contacto com amigos e colegas, mas mais a nível pessoal do que como alguém com ligações à Beira Interior. Mas fico feliz por ver o fosso entre o litoral e o interior a esbater-se em algumas coisas. Infelizmente, há também algumas que permanecem quase iguais como a falta de investimento em infraestruturas.

10-O despovoamento que marca esta região preocupa-o? Como lhe parece que poderemos inverter a tendência de baixa natalidade e abandono do meio rural?

Acho que é um problema de todo o interior de Portugal. Eu próprio, depois de ter terminado o Curso de Comunicação Social na UBI tive de procurar saídas profissionais em Lisboa. Não encontrei outra forma de crescer profissionalmente e tenho uma enorme admiração pelos meus colegas jornalistas que ainda se mantêm na imprensa regional apesar de todos os desafios. Não conheço as outras profissões em pormenor, mas creio que todas têm problemas semelhantes. As pessoas quanto não encontram alternativas no meio onde nasceram e cresceram têm de procurar outras soluções. É assim há décadas. Sinceramente não sei como inverter essa tendência. Deixo isso para quem tem poder de decisão. Suponho que criar estímulos para trazer e manter as pessoas no interior exija investimentos altíssimos que não sei se os recursos do país permitem.


11-Que referências tem desta região?

Prefiro falar de memórias: O cheiro da terra das courelas dos meus avós no "Chão Grande", a ribeira do Paúl (onde pesquei muitas trutas na minha infância e aprendi a nadar), o autocarro da Auto Transportes do Fundão que me levava e trazia do Paúl para a Covilhã com os vidros sempre embaciados por causa da chuva e do frio, tentar andar em cima do gelo frágil da levada junto à escola preparatória do Paúl, a geada branca como a neve nas manhãs frias de inverno, os jogos de futebol até às 11 da noite no meio da rua só interrompidos de vez em quando por um carro que passava, o apanhar flores de tília para vender saquinhos de chá aos vizinhos por uns tostões que já não me lembro, olhar para a Serra da Estrela e vê-la coberta de neve até meio e desejar estar lá em cima a fazer bonecos de neve, o cheiro a lenha queimada na chapa da minha avó onde grelhávamos míscaros com umas pitadas de sal apanhados no pinhal ali perto. São algumas coisas que quem nasceu e cresceu na cidade não conhece nem dá valor. Tenho saudades.

12- Gostaria de voltar à Covilhã ?


Vou voltando. Para viver definitivamente, creio não ter reunidas as condições neste momento face ao percurso profissional que estou a seguir e o facto de já ter dois filhos que nasceram em Lisboa e que têm aqui todos os seus amigos torna as coisas mais difíceis de gerir. Mas o futuro tem sempre muitas surpresas e desafios, não é? Um dia gostava de ensinar jornalismo. Quem sabe se a UBI poderia ser uma opção. Já tenho algumas coisas para ensinar. Mas para já ainda sinto que tenho muito para fazer na área do jornalismo financeiro e da cidadania.



# Trabalho integralmente publicado na edição de 11 de outubro de 2018 do Jornal do Fundão

sexta-feira, setembro 28, 2018

“Não me vou reformar da minha intervenção cívica”


É Provedor do Estudante desde 2014 e deverá ser substituído na próxima reunião do Conselho Geral da UBI. Durante os quatro anos de mandato passaram-lhe pelos olhos 1.531 solicitações de estudantes. Casos que procurou resolver por forma a fazer cumprirem os direitos dos alunos da universidade. 
Quem o conhece vinca a sua afabilidade, discrição e espírito de missão. O professor doutor Luís António Nunes Lourenço entrou na Universidade da Beira Interior como aluno de gestão em 1978 e sairá como professor associado e Provedor do Estudante. 

Em 40 anos de universidade, além do percurso de aprendizagem, foi professor, diretor de curso, coordenador de departamento e presidente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Trabalhou com todos os reitores. De Passos Morgado a António Fidalgo sem esquecer João Queirós de quem foi adversário numa lista para o Conselho Geral da UBI. 
Substituiu no cargo de Provedor Pedro Pombo e na conversa com o Jornal do Fundão garante que não abandonará “abruptamente o cargo”. Natural da Sertã e a residir no concelho do Fundão desde 2000, Luís Lourenço foi seminarista na Diocese de Castelo Branco e Portalegre. 
Ao longo do percurso de estudante foi colega do recentemente nomeado presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz conselheiro António Joaquim Piçarra. 
Agora que está à beira da reforma garante que não abandonará a atividade cívica. Luís Lourenço continuará na RIQUA – Rede de Investigadores da Qualidade. É vice-presidente da assembleia intermunicipal da CIM das Beiras e Serra da Estrela e eleito da CDU na Assembleia Municipal do Fundão.


1- Na missão de cuidar dos direitos dos estudantes da UBI, qual é o balanço que faz do desempenho das funções de Provedor do Estudante?
Foram mais de quatro anos de um desafio permanente. Não foi e nunca será uma tarefa fácil, pois lidamos com problemas cuja solução, por vezes, não é imediata. Embora sejamos sempre maus juízes em causa própria, posso dizer que saio com a tranquilidade de a ter desempenhado de forma positiva.

2- O seu mandato terminou em fevereiro último e ainda não foi substituído. Até quando está disponível para assegurar o cargo cuja nomeação é da responsabilidade do conselho Geral da UBI?
Está prevista a escolha de um novo Provedor do Estudante na reunião do Conselho Geral agendada para 10 de outubro. Assumi, no Conselho Geral, o compromisso de acompanhar ativamente a transição, caso o meu sucessor (ou sucessora) o entenda necessário. Cumprirei com esse compromisso. Não seria bom para a instituição (para a UBI) que, de forma regular, se não encontrasse uma solução nessa reunião. Mas, garanto que não abandonarei abruptamente o cargo.

3- No universo dos episódios e solicitações recebidas na Provedoria há situações recorrentes e muitas delas relacionadas com a componente administrativa e burocrática, como se explica que tais situações se repitam?
Apesar de haver situações recorrentes elas têm sempre especificidades próprias. Aliás é quase impossível tipificar a maioria das situações que motivaram o contacto com o Provedor. Essas recorrências tiveram muito mais que ver com as especificidades de cada situação do que com aspetos gerais.

4- Que foi feito por forma a minorar essas "dificuldades" e "queixas" dos estudantes?
Sempre que foi possível tipificar situações o Provedor elaborou pareceres/recomendações no sentido de as corrigir. Na generalidade dos casos essas recomendações tiveram um acolhimento positivo por parte dos responsáveis.

5- Num momento em que se fala de especulação imobiliária em outras cidades universitárias, como observa o panorama da oferta de alojamento em residências académicas na UBI? A questão da habitação não figura no mapa das queixas dos estudantes que são reportadas ao Provedor?
Devo confessar que essa questão (problemas decorrentes da especulação imobiliária) nunca foi colocada ao Provedor. Devo também dizer que é uma área em que, dada a complexidade do tema em si, bem como da quantidade e variedade dos intervenientes, não seria fácil intervir. Quanto à situação específica da UBI e da Covilhã convém referir dois aspetos. Por um lado, a UBI é a universidade portuguesa que tem, se não a maior, uma das maiores taxas de cobertura em termos de residências académicas. Por outro lado, creio que a especulação imobiliária, e as suas consequências negativas, ainda não atingiram na Covilhã os níveis de outras grandes cidades. Dito isto não significa que devamos ficar descansados. Por um lado, é necessário que a resposta da UBI seja melhorada. Por outro lado, é necessário encontrar formas de a UBI, em colaboração com a autarquia, contrariar as consequências negativas dessa especulação.

6- Que marca deixa na Provedoria do Estudante?
Essa é uma pergunta que me é difícil responder sem correr o risco de parecer presunçoso. Ainda assim poderei afirmar que depois dos primeiros passos, sempre mais difíceis e incertos, que foram dados pelo meu antecessor, a atividade que desenvolvi contribuiu para que o cargo do Provedor do Estudante da UBI fosse definitivamente conhecido e reconhecido.

7- É um profundo conhecedor da UBI pois desempenhou diversas funções. Como observa a UBI e que futuro vê na Universidade enquanto entidade e parceira no desenvolvimento do território da Beira Interior?
De facto, ocupei vários cargos e funções. Diria que quase todos os que poderia ocupar por eleição dos pares. A experiência e conhecimento aí adquiridos foram fundamentais para o desempenho da Função de Provedor. Quanto à sua questão especificamente a resposta é muito simples e rápida. A UBI é um parceiro fundamental e imprescindível.

8- Como olha para o futuro da região marcada pelo despovoamento e onde existem uma universidade e dois institutos politécnicos? Que futuro antevê para os estabelecimentos de ensino superior na região?
O desenvolvimento do país para ser sustentável tem necessariamente que ser harmonioso. A litoralização e a concentração nos grandes centros são prejudiciais para o interior mas também o é para esses grandes centros. É necessário que, na definição das políticas públicas, se tenha isso em atenção. A UBI e os Institutos Politécnicos da região são parceiros fundamentais na implementação de qualquer política de desenvolvimento regional, mas por si sós pouco podem fazer. Por isso, o seu futuro está obviamente ligado às opções que, a este nível forem feitas.

9- Tenho conhecimento que solicitou a sua aposentação, o que vai fazer depois de iniciar o período de reforma?
Esse é um assunto do foro pessoal que pouco interessará aos leitores do Jornal do Fundão. A única coisa que posso dizer é que me não vou reformar da intervenção cívica.

*Artigo integralmente publicado na edição de 27 de setembro de 2018 do Jornal do Fundão no espaço "Um Café Com"



sexta-feira, setembro 07, 2018

Reencontro com a Esperança no Território

Quando o leitor se prender nestas linhas já Castelo Novo, Aldeia Histórica de Portugal, terá mergulhado na calmaria do costume. Uma realidade apenas quebrada pelo fluxo turístico que dizem ser suficiente para acreditar nas potencialidades da freguesia do concelho do Fundão.

Ao turismo juntou-se na última quinzena a população flutuante do Verão. O fluxo de residentes temporários regista forte impacto nas duas semanas que se caracterizam pela preparação,  realização e conclusão das festa do Senhor de Misericórdia.
Um acontecimento civil e religioso que é a maior reunião anual de residentes, naturais e amigos de Castelo Novo. Este ano não foi excepção.

Além da Banda da Liga de Amigos de Castelo Novo, enquanto elemento agregador de um povo, a festa do primeiro fim-de-semana de setembro  em Castelo Novo é uma espécie de comprovativo de resiliência ou de sobrevivência ao despovoamento daquelas paragens.
À volta da devoção ao Senhor de Misericórdia e do amor às origens pessoas de todas as idades regressam àquela geografia de afectos e demonstram, através da garra e dedicação com que a cada ano se dedicam à festa, que mesmo sendo poucos ninguém os derrubará nem impedirá de, a cada ano, carregarem andores e semearem a esperança naquele chão encravado na Gardunha.


Estas palavras são, pois, uma ode aos homens e mulheres residentes, naturais e amigos de Castelo Novo que não deixam morrer a tradição e transportam para a aldeia essa vontade inabalável de fazer acontecer. Fazem-no no merecido período de férias, longe das cidades que há muitos anos os acolheram e onde conseguiram trabalho e pão.
Sem nunca esquecer o berço e tendo na Banda da Liga de Amigos o ponto forte de união, os naturais da Aldeia História constituíram família, fizeram amigos e o grupo de indefectíveis de Castelo Novo ganhou músculo. E aí estão cheios de uma alegria contagiante, uma garra pela manutenção das tradições de Castelo Novo que deveria inspirar-nos!

A dedicação dos naturais de Castelo Novo à história e vivências do território não é caso único. Felizmente para os que continuamos a acreditar nas potencialidades destas terras. No fim-de-semana em que chegam ao fim muitas das festas religiosas da temporada, merece igualmente ênfase a dedicação e empenho de cinco mulheres de Alcongosta, outra freguesia do concelho do Fundão, que estes dias deram o corpo ao manifesto para a realização da festa de Nossa Senhora da Anunciação.
Ana Rodrigues, Muriel Bernardo, Sandra Rolão, Marta Isabel Mendes e Sandra Batista completam 40 anos  e manda a tradição que não reneguem as origens e se façam mordomas.


A preparação dos festejos agendados para este sábado, domingo e segunda feira começou há um ano atrás. Depois de um contacto presencial prévio e da  troca de endereços eletrónicos, estas mulheres naturais do berço da cereja, mas residentes onde conseguiram trabalho, foram reunindo virtualmente e organizam uma romaria que é, também ali e em qualquer aldeia, o ponto de encontro de sucessivas gerações de pessoas a quem a reunião de naturais sabe a bálsamo e energia positiva para mais um ano de trabalho.

Afoitas, as festeiras que não deixam transparecer o cansaço físico, orgulham-se de não terem falhado nada do previsto e da destreza com que calcorrearam  a freguesia quando foi dia de pedir a esmola e ouviram comentários ainda muito frequentes na sociedade conservadora pouco interessada em valorizar o papel da mulher nas mais diversas áreas.


O amor à terra é, pois, um exemplo que deverá inspirar-nos sempre que arregaçarmos as mangas na procura das melhores soluções para as nossos desafios novos. O espírito de entrega e a partilha de saberes que são a alma da preservação do nosso património imaterial deveria inspirar-nos para tudo o que aqui fazemos pois o reencontro com o território é a esperança no amanhã melhor.

*Artigo adaptado e originalmente publicado na edição de 6 de setembro de 2018 do Jornal do Fundão





segunda-feira, agosto 20, 2018

Os Amigos dos nossos filhos são nossos filhos também


Receber os amigos dos meus filhos, ter a casa cheia de pessoal, observá-los e recordar tempos idos é das vivências mais interessantes da fase adulta ou da meia-idade. Dei comigo a pensar nisto ao amanhecer deste domingo. Horas depois de a Leonor ter recolhido aos seus aposentos acomodando no seu quarto mais cinco pessoas.
Na véspera pedira à tia os colchões que eu e a Helena chegámos a utilizar nas nossas aventuras de solteiras quando o montanhismo era hobby de fim-de-semana. Além dos acolchoados colchões a diva - assim se caracteriza a jovem Leonor quando tenta autorização do pai para mais um convívio fora de horas ou uma renovada ida à cidade -, também cuidou de garantir reforços alimentares e alguns sumos para a verdadeira ceia. Uma ceia antecedida de longos banhos de piscina sob a lua de agosto.
Apesar da imaturidade, os nossos adolescentes são gente prevenida e do género, quem vai para o mar avia-se em terra. Assim, de cada vez que a Leonor, mas também o João, se prepara para promover mais um convívio, certifica-se de que nada faltará aos convivas. Quantas vezes enquanto família de acolhimento somos o táxi na “devolução” da miudagem aos pais! Fazemo-lo com gosto e até alguma dedicação. Há um ditado que nos diz que quem meu filho cuida minha alma adoça, logo temos por hábito cuidar dos amigos dos nossos filhos como sendo nossos filhos, também!

A adolescência e juventude dos nossos filhos é o tempo em que eles fazem novas amizades. O amigo do amigo que conheceram em registo educativo ou na prática desportiva dentro das quatro linhas. Muitas dessas amizades cujo crescimento se reforça nas experiências fora da escola ficam para a vida. É como se os afetos até então focados nos primos e na cumplicidade de sangue ganhassem novos contornos e semeassem um novo jardim de partilha.
É nesta altura que também nós, os adultos, iniciamos um novo tempo de vivências e observação. Por um lado sentimos o orgulho de os nossos filhos crescerem, tornando-se autónomos. Começam a afirmar-se pelos bons e menos bons motivos. Sobressai-lhes o modo de ser e de pensar. Às vezes condizentes com a nossa linha de orientação, noutras alturas o registo fica distante da “doutrina” que lhe fomos incutindo. Criam-se então as barreiras ou reforçam-se os laços de compreensão e cumplicidade entre gerações. Às vezes há uma espécie de conflito entre pares. Mas tudo se resolve graças á tolerância de pessoas e ao amor incondicional de pais.
É também nesta fase que perdemos o controlo dos passos delas e deles. Aquela coisa da mãe galinha, a mania de “impingir” os filhos dos nossos amigos aos nossos filhos e o “polícia” que há em nós ganha novos contornos. Embora nos mantenhamos vigilantes já não impomos. Ou já não conseguimos impor.

Embora nos assalte uma catadupa de perguntas sobre quem é quem, de onde vem e quem são os pais ou o que fazem, rapidamente deixamos cair o questionário evitando o rótulo de coscuvilheiras ou metediças. Isto é válido, sobretudo, para as mães. Os homens fazem menos filmes e confiam mais.
São estes estados de alma misturados com a alegria de receber os amigos dos meus filhos que comprovam a capacidade do ser humano em se adaptar às novas realidades. Aqui continuamos ao lado deles, e delas, para, mediante as nossas possibilidades e forças, continuarmos a dedicar-nos aos filhos.
Os nossos descendentes dão mais vida à pacatez dos dias quando nos enchem a casa de gente. É tão bom vê-los correr e saltar, mergulhar na piscina ou acantonar na nossa geografia privativa!
No fundo, eles seguem os nossos passos e vivências. O tempo em que as férias grandes eram passadas na aldeia dos nossos avós e os mergulhos eram na ribeira ou na charca mais próxima. Depois havia as festas de Verão. E a juventude reunia-se para o baile improvisado.
Os meus verões eram na serra da Gardunha e mais tarde na aldeia de Castelo Novo. Na montanha as férias grandes eram sinónimo de guardar as cabras e banhar-me nas águas gélidas do tanque localizado entre os cedros e a casa florestal.
Quando havia turistas e crianças os meus dias ganhavam outra alegria e às vezes cantávamos ao desafio. Já na aldeia, o Verão trazia as idas à ribeira e as infindáveis conversas na rua com as pessoas da minha idade que moravam em Lisboa e no Verão voltavam a Castelo Novo.

Memórias. E que memórias guardarão a Leonor, o João e o Francisco deste tempo em que o nosso habitat recebe jovens e adolescentes de outras latitudes?

No Reinado de Vales de Pêro Viseu

Uma promessa para prevenir uma praga ligada ao olival é o mote para uma tradição centenária que “não deve ser massificada” mas que traduz ...