terça-feira, outubro 16, 2018

“O porquinho mealheiro é o pior exemplo de poupança”


Há quem o apelide de senhor poupança pois o programa “Contas-poupança” na televisão reforçou-lhe o mediatismo. Semanalmente no ar há 8 anos, “Contas-poupança” deu origem a dois livros sobre economia pessoal e familiar. O segundo está nas bancas há pouco tempo e serviu de mote a um conjunto de questões ao jornalista covilhanense Pedro Andersson.


Perfil

Jornalista há mais de 20 anos, Pedro Andersson iniciou o contacto com os media era ainda adolescente. Começou na Rádio Clube da Covilhã, foi jornalista na rádio TSF entre 1997 e 2001, altura em que foi convidado para ser um dos jornalistas fundadores da SIC Notícias. Atualmente, na SIC é jornalista-coordenador e autor da rubrica sobre finanças pessoais "Contas-poupança", emitido todas as semanas há mais de 8 anos.
É autor de 2 livros sobre finanças pessoais: "Contas-poupança - Viva melhor com o mesmo dinheiro" (2016)  e "Contas-poupança - Poupe ainda mais, Invista melhor" (2018).





1- Está nas livrarias um novo "Contas-poupança". Significa que os seguidores do programa da SIC estão mesmo a seguir os conselhos deste SOS poupança escrito por Pedro Andersson?

Pelos vistos, sim. Isso deixa-me muito feliz. No princípio até achava que algumas dicas eram demasiado simples e que as pessoas iam criticar-me porque estava a dizer coisas óbvias. Mas não. Há uma imensidão de pessoas que de facto precisam dos conselhos SOS de finanças pessoais, poupança e investimento. Eu chamo a esses conselhos "terapia de choque financeira". Há dezenas de milhares de pessoas que precisam mesmo de ajuda para porem as suas contas em ordem. Encaro isto como uma espécie de missão mais do que jornalística, de cidadania. Infelizmente, em Portugal quase ninguém tem formação financeira básica para fazer contas, comparar, negociar e lidar com as empresas, instituições e com o Estado de igual para igual. Parecemos sempre muito pequeninos e impotentes. Aceitamos o que nos dizem sem questionar. Isso tem de acabar.


2-Dois livros. O que separa o primeiro do segundo? O que os distingue?

Duas coisas separam o primeiro do segundo.  São dois anos de dicas rigorosamente novas que surgiram depois de ter escrito o primeiro livro. Ou seja, estão sempre a surgir novas oportunidades de pouparmos. As dicas de poupança surgem debaixo das pedras, como costumo dizer. Estou a fazer uma reportagem e é o entrevistado que diz: "Olhe, e já reparou que também pode poupar nisto e naquilo?". Isto quer dizer que o trabalho do "Contas-poupança" é interminável. Há sempre maneiras novas de termos o mesmo (ou de preferência melhor) com o mesmo dinheiro ou menos. Esse é o meu desafio em todas as reportagens. Não é poupar vivendo pior. O que é desafiante é conseguirmos viver melhor com menos dinheiro. E a existência do "Contas-poupança" prova que isso é possível. No segundo livro, há também uma vertente completamente nova: a do investimento. Percebi que não vale a pena poupar se não soubermos para que queremos o dinheiro. Temos de o fazer crescer senão ele vai definhando. A ideia do porquinho mealheiro é o pior exemplo de poupança. É o contrassenso absoluto.  Ao prendermos o dinheiro numa coisa parada estamos a deixar o dinheiro desvalorizar. Eu posso ter 10 mil euros e daqui a 10 anos esse dinheiro só vai valer 5 ou 6 mil, embora lá tenha os tais 10 mil. A inflação come o nosso dinheiro, mas como não o vemos desaparecer fazemos de conta que a inflação não existe. Qualquer produto de poupança que renda menos de 1,6% está a "matar" o nosso dinheiro. No livro dou variadíssimas alternativas de investimento - com risco e sem risco - para poder escolher de acordo com o seu perfil. Para mim, que nunca investi em produtos com risco, foi uma surpresa absoluta o que ganhei nos meses mais recentes com pequenos valores que investi para testar as reportagens. 

3-Em que medida é que os alertas do programa e do livro têm contribuído para formar o consumidor? 

Os consumidores portugueses estão cada vez melhor informados e formados. Já sabem ao que vão e fazem cada vez mais perguntas. E reclamam por escrito, coisas que raramente faziam no passado. E já vão ter com as empresas e instituições com os olhos mais abertos. Já sabem o que querem e, melhor do que isso, o que não querem. A palavra não está a entrar na linguagem do consumidor e isso é uma vitória enorme. Ir a um banco, receber uma simulação e dizer não ao funcionário do banco deve ser um choque para alguns desses funcionários. No passado, o que o gestor de conta dizia era lei para nós. Agora já percebemos que os gestores de conta estão a trabalhar para atingir os objetivos do banco e não para defender os nossos interesses.

4- Parece-lhe que os conselhos dados têm sido acatados pelas grandes marcas e prestadores de serviços vários?

Não muito. Noto algumas diferenças, mas só porque são obrigados pelas autoridades de supervisão e pelos reguladores. A pressão da comunicação social (nomeadamente do "Contas-poupança") tem a sua influência mas apenas isso. Já houve empresas que melhoraram o apoio ao cliente ou clarificaram algumas regras por causa do programa, mas ainda é uma coisa insípida. O verdadeiro trabalho está nas mãos de cada consumidor. Tem de ser uma "batalha" corpo a corpo, consumidor a consumidor, porque cada caso é um caso. O consumidor só deve desistir de uma reclamação quando estiver satisfeito com a resposta. É essa a mensagem que quero passar. Nem que demore 10 anos.

5-Quais são as áreas em que nós, os consumidores, somos mais negligenciados?

Somos muito negligenciados pelas grandes empresas e pelo Estado. Quando fazemos um pedido de esclarecimento ou fazemos um pedido ou uma reclamação, mandam uma resposta chapa 5 do tipo "Gostamos muito de si, é muito importante para nós e vamos analisar..." e passam semanas e não acontece nada. Isso é trágico e tem de mudar. Por vezes a única solução é avançar para o Provedor de Justiça e os Centros de Arbitragem.

6-Como observa o poder de compra dos portugueses?

Nesta fase está a melhorar. A crise foi muito grave e deixou mossa. Mas estou a ver demasiadas pessoas a esquecerem rapidamente o que podiam ter aprendido com a crise. Eu aprendi, e muito. Devíamos nesta altura de vacas menos magras estar a preparar a nossa defesa para quando a próxima crise chegar. Porque vai chegar. E não é preciso ser rico para poupar. O segredo é tão simples quanto isto: Nunca gastar mais do que se ganha. Só isso. E se conseguir pôr de lado 10% do que ganha todos os meses assim que recebe o ordenado isso é o ideal. Quem fizer isto estará preparado para tudo o que possa vir a acontecer. Mas não é fácil. O português não sabe poupar e não sabe investir. A verdade é que também nunca ninguém nos ensinou, nem as famílias nem a escola. E  cometemos erros de gestão financeira pessoal desde que nascemos até morrermos. Está na altura de fazer qualquer coisa para mudar esta atitude perante o dinheiro. Temos de perder o medo de falar de dinheiro. Ele não morde. Tanto pode ser nosso amigo como inimigo. Depende de nós.



7-Iniciou o seu percurso de jornalista na imprensa regional como observa o estado do jornalismo?

Sim, comecei na Rádio Clube da Covilhã. O jornalismo está neste momento numa encruzilhada, sobretudo por causa das redes sociais e do digital. Qualquer pessoa pode produzir informação e chegar num segundo a dezenas de milhares de pessoas. E não precisa ser jornalista. O grande desafio do jornalismo hoje é credibilizar-se a ponto das pessoas estarem dispostas a pagar (por assinatura ou assistindo a publicidade) para terem a certeza de que a informação que estão a receber é absolutamente verdadeira e que lhes traz valor acrescentado. Há tanto ruído hoje que o jornalismo tem a tentação de seguir a onda da rapidez da informação sem o rigor necessário e, se o fizer, vai perder a guerra. 


8-Como vai a liberdade de expressão em Portugal?

Muito bem. Creio que não há um problema de liberdade de expressão em Portugal. Felizmente vivemos num país onde essa questão neste momento não se coloca, na minha opinião. Pelo menos no meu caso nunca, em nenhuma circunstância, vi a minha liberdade de expressão enquanto jornalista ou cidadão ameaçada ou atacada. E nos casos em que isso acontece, os tribunais têm funcionado.


9-Natural da Covilhã, como observa a cidade e a região da Beira Interior a partir de Lisboa?

Venho ver a minha mãe regularmente. Ela ainda vive no concelho da Covilhã. Tenho visto a cidade a desenvolver-se e isso deixa-me muito satisfeito. Fico com uma imagem positiva do desenvolvimento da região e do distrito de Castelo Branco, mas só tenho uma visão de passagem. Não posso dizer que acompanhe o dia-a-dia da região. Mantenho o meu contacto com amigos e colegas, mas mais a nível pessoal do que como alguém com ligações à Beira Interior. Mas fico feliz por ver o fosso entre o litoral e o interior a esbater-se em algumas coisas. Infelizmente, há também algumas que permanecem quase iguais como a falta de investimento em infraestruturas.

10-O despovoamento que marca esta região preocupa-o? Como lhe parece que poderemos inverter a tendência de baixa natalidade e abandono do meio rural?

Acho que é um problema de todo o interior de Portugal. Eu próprio, depois de ter terminado o Curso de Comunicação Social na UBI tive de procurar saídas profissionais em Lisboa. Não encontrei outra forma de crescer profissionalmente e tenho uma enorme admiração pelos meus colegas jornalistas que ainda se mantêm na imprensa regional apesar de todos os desafios. Não conheço as outras profissões em pormenor, mas creio que todas têm problemas semelhantes. As pessoas quanto não encontram alternativas no meio onde nasceram e cresceram têm de procurar outras soluções. É assim há décadas. Sinceramente não sei como inverter essa tendência. Deixo isso para quem tem poder de decisão. Suponho que criar estímulos para trazer e manter as pessoas no interior exija investimentos altíssimos que não sei se os recursos do país permitem.


11-Que referências tem desta região?

Prefiro falar de memórias: O cheiro da terra das courelas dos meus avós no "Chão Grande", a ribeira do Paúl (onde pesquei muitas trutas na minha infância e aprendi a nadar), o autocarro da Auto Transportes do Fundão que me levava e trazia do Paúl para a Covilhã com os vidros sempre embaciados por causa da chuva e do frio, tentar andar em cima do gelo frágil da levada junto à escola preparatória do Paúl, a geada branca como a neve nas manhãs frias de inverno, os jogos de futebol até às 11 da noite no meio da rua só interrompidos de vez em quando por um carro que passava, o apanhar flores de tília para vender saquinhos de chá aos vizinhos por uns tostões que já não me lembro, olhar para a Serra da Estrela e vê-la coberta de neve até meio e desejar estar lá em cima a fazer bonecos de neve, o cheiro a lenha queimada na chapa da minha avó onde grelhávamos míscaros com umas pitadas de sal apanhados no pinhal ali perto. São algumas coisas que quem nasceu e cresceu na cidade não conhece nem dá valor. Tenho saudades.

12- Gostaria de voltar à Covilhã ?


Vou voltando. Para viver definitivamente, creio não ter reunidas as condições neste momento face ao percurso profissional que estou a seguir e o facto de já ter dois filhos que nasceram em Lisboa e que têm aqui todos os seus amigos torna as coisas mais difíceis de gerir. Mas o futuro tem sempre muitas surpresas e desafios, não é? Um dia gostava de ensinar jornalismo. Quem sabe se a UBI poderia ser uma opção. Já tenho algumas coisas para ensinar. Mas para já ainda sinto que tenho muito para fazer na área do jornalismo financeiro e da cidadania.



# Trabalho integralmente publicado na edição de 11 de outubro de 2018 do Jornal do Fundão

sexta-feira, setembro 28, 2018

“Não me vou reformar da minha intervenção cívica”


É Provedor do Estudante desde 2014 e deverá ser substituído na próxima reunião do Conselho Geral da UBI. Durante os quatro anos de mandato passaram-lhe pelos olhos 1.531 solicitações de estudantes. Casos que procurou resolver por forma a fazer cumprirem os direitos dos alunos da universidade. 
Quem o conhece vinca a sua afabilidade, discrição e espírito de missão. O professor doutor Luís António Nunes Lourenço entrou na Universidade da Beira Interior como aluno de gestão em 1978 e sairá como professor associado e Provedor do Estudante. 

Em 40 anos de universidade, além do percurso de aprendizagem, foi professor, diretor de curso, coordenador de departamento e presidente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Trabalhou com todos os reitores. De Passos Morgado a António Fidalgo sem esquecer João Queirós de quem foi adversário numa lista para o Conselho Geral da UBI. 
Substituiu no cargo de Provedor Pedro Pombo e na conversa com o Jornal do Fundão garante que não abandonará “abruptamente o cargo”. Natural da Sertã e a residir no concelho do Fundão desde 2000, Luís Lourenço foi seminarista na Diocese de Castelo Branco e Portalegre. 
Ao longo do percurso de estudante foi colega do recentemente nomeado presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz conselheiro António Joaquim Piçarra. 
Agora que está à beira da reforma garante que não abandonará a atividade cívica. Luís Lourenço continuará na RIQUA – Rede de Investigadores da Qualidade. É vice-presidente da assembleia intermunicipal da CIM das Beiras e Serra da Estrela e eleito da CDU na Assembleia Municipal do Fundão.


1- Na missão de cuidar dos direitos dos estudantes da UBI, qual é o balanço que faz do desempenho das funções de Provedor do Estudante?
Foram mais de quatro anos de um desafio permanente. Não foi e nunca será uma tarefa fácil, pois lidamos com problemas cuja solução, por vezes, não é imediata. Embora sejamos sempre maus juízes em causa própria, posso dizer que saio com a tranquilidade de a ter desempenhado de forma positiva.

2- O seu mandato terminou em fevereiro último e ainda não foi substituído. Até quando está disponível para assegurar o cargo cuja nomeação é da responsabilidade do conselho Geral da UBI?
Está prevista a escolha de um novo Provedor do Estudante na reunião do Conselho Geral agendada para 10 de outubro. Assumi, no Conselho Geral, o compromisso de acompanhar ativamente a transição, caso o meu sucessor (ou sucessora) o entenda necessário. Cumprirei com esse compromisso. Não seria bom para a instituição (para a UBI) que, de forma regular, se não encontrasse uma solução nessa reunião. Mas, garanto que não abandonarei abruptamente o cargo.

3- No universo dos episódios e solicitações recebidas na Provedoria há situações recorrentes e muitas delas relacionadas com a componente administrativa e burocrática, como se explica que tais situações se repitam?
Apesar de haver situações recorrentes elas têm sempre especificidades próprias. Aliás é quase impossível tipificar a maioria das situações que motivaram o contacto com o Provedor. Essas recorrências tiveram muito mais que ver com as especificidades de cada situação do que com aspetos gerais.

4- Que foi feito por forma a minorar essas "dificuldades" e "queixas" dos estudantes?
Sempre que foi possível tipificar situações o Provedor elaborou pareceres/recomendações no sentido de as corrigir. Na generalidade dos casos essas recomendações tiveram um acolhimento positivo por parte dos responsáveis.

5- Num momento em que se fala de especulação imobiliária em outras cidades universitárias, como observa o panorama da oferta de alojamento em residências académicas na UBI? A questão da habitação não figura no mapa das queixas dos estudantes que são reportadas ao Provedor?
Devo confessar que essa questão (problemas decorrentes da especulação imobiliária) nunca foi colocada ao Provedor. Devo também dizer que é uma área em que, dada a complexidade do tema em si, bem como da quantidade e variedade dos intervenientes, não seria fácil intervir. Quanto à situação específica da UBI e da Covilhã convém referir dois aspetos. Por um lado, a UBI é a universidade portuguesa que tem, se não a maior, uma das maiores taxas de cobertura em termos de residências académicas. Por outro lado, creio que a especulação imobiliária, e as suas consequências negativas, ainda não atingiram na Covilhã os níveis de outras grandes cidades. Dito isto não significa que devamos ficar descansados. Por um lado, é necessário que a resposta da UBI seja melhorada. Por outro lado, é necessário encontrar formas de a UBI, em colaboração com a autarquia, contrariar as consequências negativas dessa especulação.

6- Que marca deixa na Provedoria do Estudante?
Essa é uma pergunta que me é difícil responder sem correr o risco de parecer presunçoso. Ainda assim poderei afirmar que depois dos primeiros passos, sempre mais difíceis e incertos, que foram dados pelo meu antecessor, a atividade que desenvolvi contribuiu para que o cargo do Provedor do Estudante da UBI fosse definitivamente conhecido e reconhecido.

7- É um profundo conhecedor da UBI pois desempenhou diversas funções. Como observa a UBI e que futuro vê na Universidade enquanto entidade e parceira no desenvolvimento do território da Beira Interior?
De facto, ocupei vários cargos e funções. Diria que quase todos os que poderia ocupar por eleição dos pares. A experiência e conhecimento aí adquiridos foram fundamentais para o desempenho da Função de Provedor. Quanto à sua questão especificamente a resposta é muito simples e rápida. A UBI é um parceiro fundamental e imprescindível.

8- Como olha para o futuro da região marcada pelo despovoamento e onde existem uma universidade e dois institutos politécnicos? Que futuro antevê para os estabelecimentos de ensino superior na região?
O desenvolvimento do país para ser sustentável tem necessariamente que ser harmonioso. A litoralização e a concentração nos grandes centros são prejudiciais para o interior mas também o é para esses grandes centros. É necessário que, na definição das políticas públicas, se tenha isso em atenção. A UBI e os Institutos Politécnicos da região são parceiros fundamentais na implementação de qualquer política de desenvolvimento regional, mas por si sós pouco podem fazer. Por isso, o seu futuro está obviamente ligado às opções que, a este nível forem feitas.

9- Tenho conhecimento que solicitou a sua aposentação, o que vai fazer depois de iniciar o período de reforma?
Esse é um assunto do foro pessoal que pouco interessará aos leitores do Jornal do Fundão. A única coisa que posso dizer é que me não vou reformar da intervenção cívica.

*Artigo integralmente publicado na edição de 27 de setembro de 2018 do Jornal do Fundão no espaço "Um Café Com"



sexta-feira, setembro 07, 2018

Reencontro com a Esperança no Território

Quando o leitor se prender nestas linhas já Castelo Novo, Aldeia Histórica de Portugal, terá mergulhado na calmaria do costume. Uma realidade apenas quebrada pelo fluxo turístico que dizem ser suficiente para acreditar nas potencialidades da freguesia do concelho do Fundão.

Ao turismo juntou-se na última quinzena a população flutuante do Verão. O fluxo de residentes temporários regista forte impacto nas duas semanas que se caracterizam pela preparação,  realização e conclusão das festa do Senhor de Misericórdia.
Um acontecimento civil e religioso que é a maior reunião anual de residentes, naturais e amigos de Castelo Novo. Este ano não foi excepção.

Além da Banda da Liga de Amigos de Castelo Novo, enquanto elemento agregador de um povo, a festa do primeiro fim-de-semana de setembro  em Castelo Novo é uma espécie de comprovativo de resiliência ou de sobrevivência ao despovoamento daquelas paragens.
À volta da devoção ao Senhor de Misericórdia e do amor às origens pessoas de todas as idades regressam àquela geografia de afectos e demonstram, através da garra e dedicação com que a cada ano se dedicam à festa, que mesmo sendo poucos ninguém os derrubará nem impedirá de, a cada ano, carregarem andores e semearem a esperança naquele chão encravado na Gardunha.


Estas palavras são, pois, uma ode aos homens e mulheres residentes, naturais e amigos de Castelo Novo que não deixam morrer a tradição e transportam para a aldeia essa vontade inabalável de fazer acontecer. Fazem-no no merecido período de férias, longe das cidades que há muitos anos os acolheram e onde conseguiram trabalho e pão.
Sem nunca esquecer o berço e tendo na Banda da Liga de Amigos o ponto forte de união, os naturais da Aldeia História constituíram família, fizeram amigos e o grupo de indefectíveis de Castelo Novo ganhou músculo. E aí estão cheios de uma alegria contagiante, uma garra pela manutenção das tradições de Castelo Novo que deveria inspirar-nos!

A dedicação dos naturais de Castelo Novo à história e vivências do território não é caso único. Felizmente para os que continuamos a acreditar nas potencialidades destas terras. No fim-de-semana em que chegam ao fim muitas das festas religiosas da temporada, merece igualmente ênfase a dedicação e empenho de cinco mulheres de Alcongosta, outra freguesia do concelho do Fundão, que estes dias deram o corpo ao manifesto para a realização da festa de Nossa Senhora da Anunciação.
Ana Rodrigues, Muriel Bernardo, Sandra Rolão, Marta Isabel Mendes e Sandra Batista completam 40 anos  e manda a tradição que não reneguem as origens e se façam mordomas.


A preparação dos festejos agendados para este sábado, domingo e segunda feira começou há um ano atrás. Depois de um contacto presencial prévio e da  troca de endereços eletrónicos, estas mulheres naturais do berço da cereja, mas residentes onde conseguiram trabalho, foram reunindo virtualmente e organizam uma romaria que é, também ali e em qualquer aldeia, o ponto de encontro de sucessivas gerações de pessoas a quem a reunião de naturais sabe a bálsamo e energia positiva para mais um ano de trabalho.

Afoitas, as festeiras que não deixam transparecer o cansaço físico, orgulham-se de não terem falhado nada do previsto e da destreza com que calcorrearam  a freguesia quando foi dia de pedir a esmola e ouviram comentários ainda muito frequentes na sociedade conservadora pouco interessada em valorizar o papel da mulher nas mais diversas áreas.


O amor à terra é, pois, um exemplo que deverá inspirar-nos sempre que arregaçarmos as mangas na procura das melhores soluções para as nossos desafios novos. O espírito de entrega e a partilha de saberes que são a alma da preservação do nosso património imaterial deveria inspirar-nos para tudo o que aqui fazemos pois o reencontro com o território é a esperança no amanhã melhor.

*Artigo adaptado e originalmente publicado na edição de 6 de setembro de 2018 do Jornal do Fundão





segunda-feira, agosto 20, 2018

Os Amigos dos nossos filhos são nossos filhos também


Receber os amigos dos meus filhos, ter a casa cheia de pessoal, observá-los e recordar tempos idos é das vivências mais interessantes da fase adulta ou da meia-idade. Dei comigo a pensar nisto ao amanhecer deste domingo. Horas depois de a Leonor ter recolhido aos seus aposentos acomodando no seu quarto mais cinco pessoas.
Na véspera pedira à tia os colchões que eu e a Helena chegámos a utilizar nas nossas aventuras de solteiras quando o montanhismo era hobby de fim-de-semana. Além dos acolchoados colchões a diva - assim se caracteriza a jovem Leonor quando tenta autorização do pai para mais um convívio fora de horas ou uma renovada ida à cidade -, também cuidou de garantir reforços alimentares e alguns sumos para a verdadeira ceia. Uma ceia antecedida de longos banhos de piscina sob a lua de agosto.
Apesar da imaturidade, os nossos adolescentes são gente prevenida e do género, quem vai para o mar avia-se em terra. Assim, de cada vez que a Leonor, mas também o João, se prepara para promover mais um convívio, certifica-se de que nada faltará aos convivas. Quantas vezes enquanto família de acolhimento somos o táxi na “devolução” da miudagem aos pais! Fazemo-lo com gosto e até alguma dedicação. Há um ditado que nos diz que quem meu filho cuida minha alma adoça, logo temos por hábito cuidar dos amigos dos nossos filhos como sendo nossos filhos, também!

A adolescência e juventude dos nossos filhos é o tempo em que eles fazem novas amizades. O amigo do amigo que conheceram em registo educativo ou na prática desportiva dentro das quatro linhas. Muitas dessas amizades cujo crescimento se reforça nas experiências fora da escola ficam para a vida. É como se os afetos até então focados nos primos e na cumplicidade de sangue ganhassem novos contornos e semeassem um novo jardim de partilha.
É nesta altura que também nós, os adultos, iniciamos um novo tempo de vivências e observação. Por um lado sentimos o orgulho de os nossos filhos crescerem, tornando-se autónomos. Começam a afirmar-se pelos bons e menos bons motivos. Sobressai-lhes o modo de ser e de pensar. Às vezes condizentes com a nossa linha de orientação, noutras alturas o registo fica distante da “doutrina” que lhe fomos incutindo. Criam-se então as barreiras ou reforçam-se os laços de compreensão e cumplicidade entre gerações. Às vezes há uma espécie de conflito entre pares. Mas tudo se resolve graças á tolerância de pessoas e ao amor incondicional de pais.
É também nesta fase que perdemos o controlo dos passos delas e deles. Aquela coisa da mãe galinha, a mania de “impingir” os filhos dos nossos amigos aos nossos filhos e o “polícia” que há em nós ganha novos contornos. Embora nos mantenhamos vigilantes já não impomos. Ou já não conseguimos impor.

Embora nos assalte uma catadupa de perguntas sobre quem é quem, de onde vem e quem são os pais ou o que fazem, rapidamente deixamos cair o questionário evitando o rótulo de coscuvilheiras ou metediças. Isto é válido, sobretudo, para as mães. Os homens fazem menos filmes e confiam mais.
São estes estados de alma misturados com a alegria de receber os amigos dos meus filhos que comprovam a capacidade do ser humano em se adaptar às novas realidades. Aqui continuamos ao lado deles, e delas, para, mediante as nossas possibilidades e forças, continuarmos a dedicar-nos aos filhos.
Os nossos descendentes dão mais vida à pacatez dos dias quando nos enchem a casa de gente. É tão bom vê-los correr e saltar, mergulhar na piscina ou acantonar na nossa geografia privativa!
No fundo, eles seguem os nossos passos e vivências. O tempo em que as férias grandes eram passadas na aldeia dos nossos avós e os mergulhos eram na ribeira ou na charca mais próxima. Depois havia as festas de Verão. E a juventude reunia-se para o baile improvisado.
Os meus verões eram na serra da Gardunha e mais tarde na aldeia de Castelo Novo. Na montanha as férias grandes eram sinónimo de guardar as cabras e banhar-me nas águas gélidas do tanque localizado entre os cedros e a casa florestal.
Quando havia turistas e crianças os meus dias ganhavam outra alegria e às vezes cantávamos ao desafio. Já na aldeia, o Verão trazia as idas à ribeira e as infindáveis conversas na rua com as pessoas da minha idade que moravam em Lisboa e no Verão voltavam a Castelo Novo.

Memórias. E que memórias guardarão a Leonor, o João e o Francisco deste tempo em que o nosso habitat recebe jovens e adolescentes de outras latitudes?

sexta-feira, junho 01, 2018

Cem Anos e uma Vida Feliz


Apresento-vos a centenária Maria de Lourdes Videira. Nasceu na cidade mais alta, veio para o Fundão ainda bebé e completa no dia 3 de junho 100 anos. Uma centena de anos de uma vida feliz. Contou-me no dia em que me recebeu em sua casa, no centro da cidade do Fundão, para gravarmos a conversa que passará na Rádio Cova da Beira, no programa “Porque Hoje é Domingo” exatamente à mesma hora em que na igreja matriz do Fundão decorrerá a eucaristia que assinalará o centenário de Lurdinhas Paulouro.



“Lurdinhas” pela dedicação que familiares e amigos têm para com a viúva de Armando Paulouro, o militar com que Maria de Lourdes Videira se casou depois de 26 anos de namoro à distância. “O meu marido passou muitos anos nos Açores e umas vezes queria casar, outras nem tanto. Escrevia-me muitas cartas de amor, mais do que eu!”. Descreve Lourdes Videira que embora não tenha adotado o nome da família Paulouro, é conhecida de todos os fundanenses como Lourdes Paulouro.

Na conversa divertida e intimista na sala de estar de um apartamento na rua Vasco da Gama, Lourdes Videira confessa-nos que gostaria de ter sido atriz. “Eu quando via o palco, corria para lá e só me imaginava ali a demonstrar o que eu gostava de fazer. Mas eu tinha uma vida muito presa. Não gostava de deixar os meus pais sozinhos e também não tive grandes oportunidades de estudar”, revela-nos ainda quem abriu no Fundão o primeiro colégio privado para as crianças. No entanto, o mesmo deixou de existir quando chegaram ao Fundão as Irmãs Franciscanas que criaram na Misericórdia um outro colégio que praticava “preços mais baixos” e lhe acabou com o projeto, descreve.

Além da educação infantil baseada na pedagogia de João de Deus Ramos *, Lourdes Paulouro desenvolveu, até aos 70 anos, um percurso profissional em boa parte foi dedicado ao combate à tuberculose. “Quando as Freiras me acabaram com o colégio, havia muitas famílias com tuberculose e Monsenhor Santos Carreto**, convidou-me para trabalhar no Dispensário de Tuberculose”. “Ajudei muitas famílias. Nos anos cinquenta ia às barracas dos ciganos dar injeções e fazer inquéritos para avaliar a evolução do surto da doença nas Minas da Panasqueira e na Covilhã”, explicou quem também exerceu funções de assistente social e reportava “diretamente ao diretor geral de saúde”.

Entusiasmada com as memórias de uma vida sempre “bastante ativa” a minha entrevistada orgulha-se de ter tido “a melhor nota – 16 valores – do seu ano no bacharelato de ação social”. Ao mesmo tempo lamenta não ter podido inscrever-se na licenciatura por “questões económicas”.

É única viva das três filhas do casal Emília Castro e Silva e João Videira. Com o sorriso contagiante que todoa a gente lhe reconhece, Maria de Lourdes conta ainda que o seu pai, “enquanto militar foi o único português que deu um duplo salto numa cerimónia oficial para a Rainha Dona Amélia”.  

O percurso de vida da viúva de Armando Paulouro, que durante vários mandatos foi secretário de sucessivas mesas administrativas da Santa Casa da Misericórdia do Fundão, cruza-se com a vida moderna da Misericórdia e do Hospital do Fundão onde chegou a trabalhar quando o serviço local de Luta Contra a Tuberculose passou para a alçada do Hospital local.

Uma vida de bem-fazer que cedo começou a desenhar-se pois aos doze anos, “quando ainda estudava num colégio na Guarda, um Missionário que foi visitar-nos perguntou se alguém se voluntariava para o acompanhar em África. Coloquei-me em cima de uma cadeira e ofereci-me para ir, mas era uma criança”, esclarece.

Diante a atenção da sobrinha Ana Emília Junqueiro que assiste à conversa, Maria de Lourdes socorre-se da memória fotográfica das muitas vivências e lugares emblemáticos do seu Fundão: O cinema Gardunha, o colégio de Santo António (onde conheceu o amor da sua vida) ou o Casino Fundanense dos bailes e outros encontros cujas lembranças vivenciadas povoam a conversa que durou mais de duas horas.

Já no final da gravação da entrevista sugeriu que a sobrinha me ofertasse um exemplar da revista satírica “O Mundo Ri” que durante anos foi desenvolvida por Armando Paulouro, José Vilhena e Simões Nunes. A publicação cujo número 103, datado de novembro de 1960, está agora na minha biblioteca custava 4$00 escudos.  



Certamente que a revista que perturbava a PIDE continuará a fazer parte das leituras de quem gosta imenso de ler. Camões está entre os clássicos mas hoje em dia lê  “livros mais leves” – terminou agora a leitura de “Fellini na Praça Velha”, da autoria de seu sobrinho Fernando Paulouro Neves.

O dia de Maria de Lourdes começa de manhã com as rotinas normais de quem gosta de vestir “toaletes que me fiquem e façam sentir bem”. “Vou sempre almoçar fora de casa e todos os dias tomo chá ou café com as minhas amigas. Não gosto de estar em casa”, confirma.

Autónoma e saudável, “só vai ao médico quando é obrigada”, escreve e lê sem precisar de óculos. Não sabe o que são diabetes, colesterol elevado ou tensão arterial irregular e diz-nos que o segredo é “estar sempre bem”.

E ficará ainda melhor quando este domingo presenciar na festa surpresa do centenário de nascimento um punhado de amigos, sobrinhos, sobrinhos netos e alguns bisnetos.

Será um momento inesquecível. Como inesquecível foi o pedaço da tarde de dia 31 de maio de 2018, o dia da gravação de uma conversa que reforça a ideia de bondade, pluralidade e modernidade da senhora Maria de Lourdes Videira.

*João de Deus Ramos era filho do pedagogo e poeta João de Deus e de D. Guilhermina Battaglia Ramos. João de Deus Ramos é  autor, entre outras, das seguintes obras sobre pedagogia: Reforma da Instrução Primária, 1911; A Reforma do Ensino Normal, 1912; O Estado Mestre Escola e a Necessidade das Escolas Primárias Superiores, 1924; A Criança em Portugal antes da Educação Infantil, 1940 – in Wikipédia
** Monsenhor Santos Carreto foi Sacerdote e Reitor do Seminário do Fundão

terça-feira, abril 10, 2018

Caderno de Viagem


Breve apontamento sobre um passeio à geografia de uma parte de Trás-os-Montes. Do Fundão a Bragança vinte anos de depois poderia ser o subtítulo do texto que se segue.

Maria do Céu Tomé tem 90 anos e mora em Marialva. Na manhã solarenga de finais de março, Sexta-feira Santa, Maria abeirou-se dos convivas e logo ali deixou sinais de ser uma boa conversadora. Uma anciã cheia de amor à terra e às lendas daquela Aldeia Histórica de Portugal. Não fosse a necessidade de cumprir horário e o Dia Santo teria sido preenchido a ouvir as suas lendas e tradições à volta de Marialva.




Marialva não é só o belíssimo castelo do século XII. À volta daquele Monumento Nacional assim classificado desde 1978 contam-se histórias de personagens que experienciaram vivências inigualáveis. No interior das muralhas são visíveis edifícios históricos como a antiga Casa da Câmara ou o Pelourinho. Também podemos observar o vale que constitui a Meseta Ibérica e imaginar-nos numa repetida caminhada de descoberta do território.

A redescoberta de Trás-os-Montes foi a motivação para a viagem e a experiência, mais de 20 anos depois de lá ter estado, permitiu-me descobrir que em Pocinho, a caminho de Vila Nova de Foz Côa, além da belíssima vista sobre o rio Douro podemos ter o primeiro contacto com o Centro de Alto Rendimento do Pocinho (CARP). Provavelmente uma infraestrutura concretizada no tempo em que jorravam milhões da Europa que depois eram aplicados em equipamentos sem utilidade.
Pensei.
Mas não! 

O CARP da autoria do arquiteto Álvaro Andrade é propriedade do Município de Vila Nova de Foz Côa e foi inaugurado em 2016. Localizado nos socalcos da paisagem a 500 metros do Douro, o CARP já recebeu estágios de várias seleções internacionais de remo e canoagem e a sua construção junta-se às mais-valias turísticas e de lazer de um território onde as Gravuras Rupestres do Vale do Côa e a beleza do Douro Vinhateiro são ativos de enorme projeção.
Não tirei fotos mas neste sítio o leitor encontra testemunhos e uma lista de prémios atribuídos ao equipamento. http://www.car-pocinho.pt/index.php/testemunhos



A viagem prossegue e já em Vila Flor faz-se uma nova paragem, desta vez para almoçar e conhecer as Tradições Quaresmais da vila localizada no distrito de Bragança. Na terra onde também se fazem bons concertos e espetáculos de teatro, o Centro Cultural Vila Flor sobressai mas é na Igreja Matriz que o coração se emociona pois os altares daquele templo de estilo barroco fazem lembrar a Igreja Matriz de Castelo Novo, Aldeia Histórica de Portugal mas na Beira Baixa.




Deixamos Vila Flor debaixo de uma chuva de neve mas com o estômago aconchegado no restaurante Piripiri. Ali os nacos de febras, o bacalhau e o polvo à lagareiro deixavam antever o que o cardápio nos reservaria para as refeições seguintes.

Estávamos na Rota da Terra Fria Transmontana, Rio de Onor fora um dos destinos seguintes. Mas antes é revelante registar o nome das aldeias de Bragança onde pernoitámos, combatemos o frio e alimentámos a alma. Babe e Gimonde. Dormimos na primeira, almoçámos e jantámos na segunda. Se o conforto do TER- Turismo em Espaço Rural de um antigo juiz lá do burgo é indesmentível também é verdade que as refeições fartas e baratas - mas também pouco diversificadas – enriquecem este Caderno de Viagem.




Aquelas postas, o cordeiro na brasa e o vinho da casa ao qual se juntava um digestivo servido como se fosse um shot ficarão para sempre na memória dos jovens e adolescentes que, esperam os adultos, voltarão à geografia transmontana daqui a uns anos.
Pode ser que daqui a duas décadas, seguindo o exemplo das cotas, providenciem o passeio!

Talvez nesse hipotético regresso, os nossos filhos e sobrinhos encontrem turistas de outras latitudes ou até uma nova geração de transmontanos a falar-lhes de referências do nosso Fundão que vão além da cereja, das cerejeiras em flor ou do resort Alambique de Ouro, de que nos falaram sempre que a malta dizia de onde partira.

A gente fica orgulhosa de ouvir falar bem da nossa terra! Das nossas marcas e da geografia que nos acompanha dentro e fora do sopé da Gardunha.

Vamos e voltamos de peito cheio. E na bagagem trazemos postais e ideias feitas sobre boas iniciativas que os nossos governantes poderiam replicar aqui pela Cova da Beira.

Macedo de Cavaleiros foi o destino de Domingo de Páscoa. Na hora de retemperar energias e redefinir a rota de regresso ao nosso Fundão parámos num acolhedor café e nos “Dez Manos” encaminharam os viajantes para um requintado restaurante que por instantes nos faz acreditar que estaríamos num qualquer estabelecimento de restauração parisiense.




E não estávamos enganados pois “A Brasa” aconchegou o estômago, aqueceu o coração, alumiou o caminho e fez-nos acreditar no sonho. 
O glamour tomou conta do espaço e dos inúmeros comensais que saíram dali felizes e cheios de vontade de voltar para degustar a bochecha confitada com creme de vinho tinto ou uma daquelas sobremesas de autor que merece um brinde final com champanhe da casa e um viva à criatividade gastronómica e simpatia do chef de sala.

A refeição do primeiro dia de abril foi também um momento de reflexão sobre um passeio que muito bem combina com o meu hastag “o interior faz bem”!
Terminava a viagem de três dias a uma parte do Portugal profundo que os decisores políticos abandonam mas que os turistas de todo o lado - estrangeiros também! - admiram e recomendam.
É extremamente enriquecedor observar como as comunidades locais se adaptam à nova realidade e exigências.

Miranda do Douro é um desses lugares de visitação. Povoado por centenas de turistas, Terra de Miranda, que chegou a ser habitada por Romanos,  é uma cidade que no Sábado de Aleluia tinha o comércio tradicional cheio de clientes e onde foi possível conhecer a belíssima Sé Catedral ou a Igreja da Misericórdia.
Todo o casco urbano se assemelha a um gigantesco museu ao ar livre e naquele fim-de-semana decorria uma Feira de Doçaria e Produtos Locais que nos fez ficar com água na boca, dançar e abrir a carteira.




Daquele território que o Município local caracteriza como “Património Natural Cultural” trouxemos postais e vivências que podem inspirar as nossas comunidades beirãs.

É bom quando assim acontece! É bom quando o nosso Caderno de Viagem vai muito além da comparação com o nosso quotidiano.




terça-feira, março 13, 2018

“O Interior está a morrer porque os governos não o valorizaram”

Carlos  Gil está a viver mais um momento importante na sua badalada carreira de estilista. O êxito que caracterizou a sua sexta participação na Semana da Moda Feminina em Milão junta-se ao reconhecimento a que já nos habituou quer pela presença habitual em eventos de moda como o Portugal Fashion e Moda Lisboa quer pelo apreço que as suas coleções vão granjeando em Paris ou no Dubai. 

Um percurso igualmente traduzido em títulos honoríficos e de mérito como a comenda da Ordem Infante D.Henrique que lhe foi conferida em 2015 pela presidência da República ou a Medalha de Mérito Municipal do Fundão que lhe foi entregue pela Câmara Municipal. Realidades e factos que em nada alteram o modo de ser e estar do criador de moda que não se compromete com o futuro mas olha para o horizonte com a mesma garra que caracteriza o percurso iniciado num tempo em que abrir um atelier de moda numa cidade do interior de Portugal era um risco. 

Eis, pois, o perfil de alguém que não convive bem com a fama mas admite ser um “embaixador de Portugal” no exigente e competitivo universo da moda. A partir do seu atelier damos a conhecer a caminhada de quem aproveita as deslocações a Londres, Nova Iorque, Paris ou Milão para momentos de “estudo e introspeção pessoal” com vista a novas coleções e desafios.


Entre a semana da Moda Feminina em Milão que decorreu em fevereiro e o Portugal Fashion que terá lugar no dia 17 de março em Lisboa vai quase um mês mas o estilista fundanense Carlos Gil ainda está a digerir o êxito que a coleção “Twenty four Hours ” alcançou junto da imprensa internacional que acompanhou o desfile que congrega  “o maior número de holofotes” para a moda. "Foi a primeira vez" que as apostas de Carlos Gil tiveram tão expressiva visibilidade nos jornais e revistas de moda estrangeiras confessou ao Jornal do Fundão o designer de quem se fala. “Eu sabia que um dia este reconhecimento haveria de chegar só não sabia quando”, revela-nos o criador que faz dois desfiles por ano em Milão. 

Um sonho que começou a desenhar-se há quatro anos quando se encontrava de férias no Dubai e recebeu um telefonema do então presidente do Portugal Fashion que lhe disse «Carlos não sei onde está mas vai ter de vir para ir a Milão, esta é a sua oportunidade». Passado uma semana estava no Fundão para preparar uma coleção já com foco em Milão. “Planificar uma coleção obriga-me a desnudar de tudo, desde preconceitos a estatutos e propor-me ao que é mais básico: Mostrar o que é bonito, o que toda a gente vai gostar. Mas combinar novidade com elegância e conforto exige um equilíbrio enorme. Nas minhas coleções não há um desequilíbrio provocativo pois eu não procuro o bizarro para provar aos media que existe moda ou que existe a marca Carlos Gil”.

“A marca Carlos Gil destina-se a um target de pessoas que gostam de moda. É feita para mulheres que gostam de ser elegantes e se apresentam na vida com uma postura muito própria. Têm de se sentir confortáveis. Nas minhas coleções gosto de sobrepor e jogar com as cores, gosto muito de contrates”. O preto e vermelho que caracterizam a imagem da marca “dão aquela sensação de bem-estar mal estando, porque o preto dá-nos conforto e dá-nos paz e o vermelho acrescenta-lhe imenso vigor e energia positiva”, descreve o estilista.

Carlos Gil recebeu-nos no seu atelier na avenida da liberdade no Fundão no último sábado. No laboratório de moda do senhor comendador o ambiente é primaveril. Na loja são visíveis os modelos da próxima estação e além disso o jardim interior transporta - nos para a magia floral e verdejantes dos dias que aí vêm.
Logo depois do Portugal Fashion em Lisboa, Carlos Gil cumprirá um dos objetivos da sua carreira de 19 anos de estilista. Em parceria com a arquiteta Inês Gavinho abrirá, dentro de semanas, a primeira loja em nome próprio.Trata-se de um conceito que junta moda e arquitetura pois eu sou um apaixonado por arquitetura de exteriores e interiores. Quando me propõem essa parceria com a arquiteta Inês Gavinho que irá trabalhar com várias outras marcas como a «Boca do Lobo» que tem um estatuto internacional no designe de mobiliário só pode ser um desafio imenso”, sintetiza.

A conversa flui e a forma como Carlos Gil recebe a reportagem do JF faz desta edição de "Um Café com," uma partilha de particularidades do nosso interlocutor. Poucos saberão da devoção de Carlos Gil a Nossa Senhora. “Não sou pessoa de ir à missa com frequência mas sou bastante crente e não entro no atelier sem dar um beijo a Nossa Senhora como não entro em casa sem dar um beijo ao meu Menino Jesus”, diz quem tem a imagem da Virgem Mãe à vista de todos os que visitem o seu atelier. No mesmo espaço cheio de luz e com janela para a serra da Gardunha também está a Medalha de Prata de Mérito Municipal. Carlos Gil tem muito orgulho no seu Fundão, cidade que lhe “dá imensa paz de espírito”. 

Embora tenha nascido em Moçambique há quase 50 anos, Carlos Gil não renega a sua geografia de afetos e a paisagem, onde não consegue passar despercebido, é o lugar que o inspira e onde tem as amarras para continuar a dar passos ponderadamente seguros. "Quando há 30 anos disse à família que queria tirar um curso de moda foi de uma coragem muito grande. Um individuo do interior ser reconhecido pelas grandes revistas estrangeiras da especialidade é uma grande coragem. Não é para todos e se pessoas anónimas um dia se inspirarem em mim isso deixar-me á satisfeito”, verbaliza.

Carlos Gil é um perfeccionista e orgulha-se de utilizar sempre matéria-prima de primeira qualidade. "Valorizo imenso o pormenor, o interior de cada peça pois o que está em causa é o nome Carlos Gil". Por outro lado a responsabilidade de representar o seu país não pode defraudar as entidades que confiaram no meu trabalho. "E óbvio que quando sou convidado para fazer um desfile na Polónia, no Dubai ou em Paris não é só o meu nome que está em jogo mas sim o meu país", vinca. Um modo de ser e estar que também é válido para as suas clientes. “Não costumo impor-me mas de forma simples e educada eu explico a uma cliente que se vai de lantejoulas às nove da manhã como é vai a uma festa à noite de calças de ganga! Para cada situação há um compromisso de rigor para que essa pessoa se apresente bem vestida”, explica-nos quem facilmente consegue criar empatia com as suas clientes. “Procuro sempre o melhor modelo para que se sintam inteiras em qualquer circunstância”. 

Um modo de argumentação que encaixa na perfeição na coleção outono inverno 2018/2019 cujas coordenadas se adaptam a quaisquer momentos da mulher mãe e dona de casa ou da mulher executiva e poderosa.  Um “trabalho coletivo” vinca o estilista que se emociona quando fala da dedicação e empenho dos seus colaboradores. Carlos Gil acompanha de forma minuciosa a confeção de todas as peças que saem do atelier. “Nada se faz sem os meus olhos”, acrescenta o empresário que tem na esposa Carla Neto a retaguarda que o projeto de criação, conceção e comercialização exigem. À equipa de sete pessoas que trabalham no Fundão juntam-se mais seis pessoas que a partir de Milão e de Lisboa cuidam da exportação e comunicação da marca.

À mesa do café que gentilmente nos serviu, vem à baila o despovoamento do interior e a tenacidade de quem alavanca uma marca a partir do Fundão. “O Interior está a morrer porque os governos não o valorizaram de forma eloquente” acusa. "Enquanto não tivermos um governo que olhe para a região, que foi altamente prejudicada ao longo de dezenas de anos, permitindo que uma franja populacional de pessoas de valor se mantenha onde tudo é mais difícil, continuaremos a ser poucos”, afirma quem chega a pagar “mil euros de portagem por mês”, dada a necessidade de desenvolver a sua atividade entre o Fundão e Lisboa.

Texto originalmente escrito e publicado na edição de 8 de março de 2018 do Jornal do Fundão


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