Fracções de memórias passadas. Tempos idos e diluídos na espuma dos dias. A actualidade desta Beira que é a nossa!
terça-feira, fevereiro 20, 2018
Pela Gardunha
Já foi há uns dias mas vale sempre a pena dar expressão pública às ocorrencias que nos marcam e contribuem para a valorização de uma causa.
E desta vez a causa foi o pulmão maior do Fundão. Recolher fundos para reflorestar a serra da Gardunha que foi devastada pelos incêndios do Verão passado.
A causa era nobre e por essa razão, mas também pelo amor partilhado à Gardunha, não foi difícil reunir um bom leque de músicos e promover um concerto que também foi um grito de alerta em defesa da serra da Gardunha.
António Manuel Ribeiro, líder dos UHF, apelou "salvemos em consciencia aquilo que é nosso"!
E assim o fizeram as mais de 700 pessoas que naquela noite de Dia de Carnaval se juntaram na cidade do Fundão para juntar a voz à dos artistas que estiveram em palco.
Além dos lendários UHF, estiveram no concerto solidário pela Gardunha os artistas Paulo Ribeiro, Celina da Piedade, Vicente Palma, Anafaia, Grupo de Cantares do Agrupamento de Escolas do Fundão e sessenta jovens estudantes de música na Academia de Música e Dança do Fundão e Escola Profissional de Artes da Beira Interior.
Um momento de união em torno de uma janela do território que começou a desenhar-se há alguns meses pois na noite em que o fogo chegou ao concelho do Fundão, alguns desses músicos estavam, exactamente, no Fundão a dar um concerto.
Nessa noite de agosto de 2017, Vicente Palma, Paulo Ribeiro e Celina da Piedade integravam o coletivo Tais Quais e observaram como a cinza que caia sobre os espectadores que os ouviam significava que mais um atentado contra a natureza estava a acontecer ali perto.
segunda-feira, janeiro 08, 2018
Uma artista Inspiradora
Volto hoje ao verbo para partilhar com os leitores a boa notícia do reconhecimento da artista plástica Fátima Nina.
Natural e residente na Covilhã, Fátima Nina foi hoje galardoada em Roma com o prémio melhor presépio estrangeiro.
Um prémio pela obra apresentada no decurso da exposição colectiva de presépios que decorreu de Novembro até dia 7 de janeiro na capital italiana.
A mostra organizada Rivista delle Nazioni, reuniu mais de centena e meia de obras de artistas de Itália e do resto do mundo. O presépio de Fátima Nina integrou o conjunto dos 41 conjuntos apresentados por criadores de fora de Itália e valeu à designer de moda a participar na "Exposição Internacional 100 Presépios" e trazer para Portugal um troféu de que muito se orgulha.
A artista que expôs em Itália a convite da Embaixada de Portugal na Santa Sé apresentou um presépio de cores vivas e concretizado a partir de tecidos especiais.
Fátima Nina é uma mulher bastante inspiradora. Em novembro do ano passado tive o grato gosto de a entrevistar para o meu programa "Porque Hoje é Domingo" na Rádio Cova da Beira e já nessa altura a expectativa da artista era eladíssima.
De resto, é com gosto que aqui recupero o texto jornalístico que escrevi para o Jornal do Fundão, também em novembro último, sobre uma das pessoas mais criativas que conheço.
Aqui está
Natural e residente na Covilhã, Fátima Nina foi hoje galardoada em Roma com o prémio melhor presépio estrangeiro.
Um prémio pela obra apresentada no decurso da exposição colectiva de presépios que decorreu de Novembro até dia 7 de janeiro na capital italiana.
A mostra organizada Rivista delle Nazioni, reuniu mais de centena e meia de obras de artistas de Itália e do resto do mundo. O presépio de Fátima Nina integrou o conjunto dos 41 conjuntos apresentados por criadores de fora de Itália e valeu à designer de moda a participar na "Exposição Internacional 100 Presépios" e trazer para Portugal um troféu de que muito se orgulha.
A artista que expôs em Itália a convite da Embaixada de Portugal na Santa Sé apresentou um presépio de cores vivas e concretizado a partir de tecidos especiais.
Fátima Nina é uma mulher bastante inspiradora. Em novembro do ano passado tive o grato gosto de a entrevistar para o meu programa "Porque Hoje é Domingo" na Rádio Cova da Beira e já nessa altura a expectativa da artista era eladíssima.
De resto, é com gosto que aqui recupero o texto jornalístico que escrevi para o Jornal do Fundão, também em novembro último, sobre uma das pessoas mais criativas que conheço.
Aqui está
Fátima
Pereira Nina tem uma relação umbilical com a arte. Sempre gostou muito de
formas, cores e tecidos. É uma artista plástica que iniciou o percurso em
Lisboa quando se licenciou em designe
de moda. Viveu em Paris e voltou à cidade berço para desenhar modelos para
coleções de uma empresa de lanifícios. Os tecidos e a moldagem dos mesmos
continuam a fazer parte da vida desta covilhanense que ama a sua terra e se
inspira nas suas paisagens e na canção francesa para criar.
“Se
os filhos de Adão tocaram, os da Covilhã sempre cardaram”. A frase está
inscrita no painel dedicado aos lanifícios que se encontra no hotel “Pura Lã”
na Covilhã. A obra assinada pela designer
e artista plástica Fátima Pereira Nina é “um memorando complexo todo feito com
lã e fios e que através de oito painéis nos transporta até à paisagem das
ribeiras, da pastorícia, dos teares ou das chaminés das fábricas”. A obra
constitui um dos mais recentes trabalhos da nossa convidada para a rubrica “Um
Café Com”.
Desta
vez o ponto de encontro é o atelier
da covilhanense Fátima Pereira Nina, uma artista plástica conhecida sobretudo
pela vasta obra dedicada aos presépios e à mulher. O trabalho a partir do
movimento escultural da mulher, o feminino a partir de folhas de árvores ou de
ouriços são os motivos mais conhecidos da obra da artesã que se diz apaixonada
pela história do traje e que se deixa fascinar pela liberdade criativa de cada
um. “Nós hoje somos livres de criar o nosso próprio estilo”, refere a artista
plástica que por estes dias terá trabalhos seus expostos em Roma, Lisboa e
Coimbra. “Em Itália vou estar representada, a partir de dia 24 de novembro,
numa coletiva de presépios de que muito me orgulho”, refere Fátima Nina ao
mesmo tempo que deixa escapar um lamento:” Desta vez deixei escapar o Porto,
não tive tempo para criar uma obra especifica para a mostra”.
Esta
é altura do calendário em que Fátima Nina tem mais trabalho. “Até ao fim de
novembro tenho de concluir cerca de 50 presépios”, explica-nos a artista no
momento em que nos serve um café no soalheiro atelier localizado nas imediações
do Centro Hospitalar Cova da Beira e com vistas para o Data Center da Covilhã e para a serra da Gardunha.
“Outono
significa agarrar-me ao trabalho, as pastas secam ao ar livre e as temperaturas
mais frescas que no Verão permitem que o processo de secagem seja lento e
eficaz”, explica-nos a artista que guarda os meses de julho e agosto para se
dedicar à pintura ou para viajar até à sua segunda cidade. Lisboa.
Rendida
aos campos da Beira Baixa, Fátima Nina conta-nos através da janela para a
Gardunha como a paleta de cores a inspira para realizar novos trabalhos e
cumprir uma agenda que a no próximo ano lhe permitirá apresentar-se numa
exposição “francófona em que a figura feminina estará presente e de forma mais
evidente, pois a mulher terá mais porte mas estará igualmente bela”. A par
desta mostra que em princípio ocorrerá em Lisboa, Fátima Nina prepara-se para
desenvolver um outro trabalho criativo em que aparecerão as telas e que terá o
contributo do artista do Tortosendo Pedro Goulão Taborda.
A
mostra programada para 2018 será mais uma a inscrever no percurso da artista
que tem no Palácio de Rio Frio em Palmela um dos lugares onde mais gostou de
expor. Mas também o Porto, onde esteve pela primeira vez em 2014, ou cidades
como Sabugal, Coimbra, Lisboa e claro, a sua Covilhã! A cidade da lã e da neve
que recorda como uma geografia “como um lugar povoado pelo barulho das
máquinas, os cheiros e outras características especiais” das quais “não tenho
saudades” pois prefere identificar-se com a UBI e a valorização das antigas
unidades fabris fomentando a preservação de um património industrial a que se
junta agora a arte urbana.
“Aprecio
muito, descobri há pouco tempo essa riqueza e confesso que não estava à espera
do que vi”, revela quem se inspira “nas árvores e nos castanheiros da Beira”
para criar a árvore como escultura feminina e a copa como o rosto da mulher ou
personagens do portfólio onde figuram os tradicionais presépios com São José,
Nossa Senhora e os Reis Magos, ou outras obras como os Homens Forcados e
Toureiros, os Bailaricos e as Rainhas de Portugal.
Nessa
como em todas as obras Fátima Nina projeta a figura feminina e inspira-se na
canção francesa para juntar tecidos e outra matéria-prima. No atelier podemos observar trabalhos com
esfregão de arame mas também com papel de alumínio, folhas de ferro forjado,
cortiça, linho em rama ou arame. À pergunta sobre como e quando decidiu
enveredar pela arte de transformar matérias em aclamadas peças decorativas,
Fátima solta uma contagiante gargalhada, conta-nos que começou por “precisar de
fazer um presépio e uma vez que conhecia a técnica começou a fazer
experiências”. Iniciou com uma Nossa Senhora, diz-se uma pessoa criativa que
“gosta muito de criar formas de moda” e há mais de dez anos que se dedica
afincadamente ao ofício.
Sobre
a moda propriamente dita, Fátima confessa-se desligada das novas tendências mas
reconhece que “há um enorme potencial de gente a criar e a fazer diferente”.
“Sigo um ou outro, acompanho o fantástico Carlos Gil mas não estou em condições
de analisar com sentido critico o trabalho seja de quem for”, esclarece.
Não
se assume como feminista mas não se furta a elogios e odes à mulher e à
condição feminina. “A mais importante, a mais bela dos seres”, vinca.
Indigna-se facilmente com a desigualdade de género e «explode» quando a
televisão e os jornais lhe mostram a crueldade da violência doméstica. O grau
de revolta quanto à ausência de oportunidades para a generalidade das mulheres
só tem paralelo com a narrativa à volta do flagelo dos incêndios que no último
Verão varreu paisagens de que tanto gosta. “Um horror que me entrou pela janela
e me deixou chocada e preocupada com o futuro”.
terça-feira, janeiro 02, 2018
"Rio sem Margem"
Um texto de Beatriz Nunes, vocalista dos Madredeus, torna belíssima esta interpretação da Orquestra Municipal do Fundão.
O tema incluído no alinhamento do concerto de final de ano da Orquestra Municipal do Fundão embala-nos e faz-nos sorrir para a vida.
Sob a batuta de João Roxo e com a mestria de Gil Gonçalves que de forma mágica toca a sua tuba com classe, a Orquestra Municipal do Fundão é apenas uma amostra da riqueza musical de uma pequena e localizada no interior de Portugal.
É o Fundão a dar cartas à vizinhança e a embalar-nos numa linguagem harmoniosa e cheia de boas energias para o Ano Novo de 2018.
Que seja um ano de ouro para todos!
O tema incluído no alinhamento do concerto de final de ano da Orquestra Municipal do Fundão embala-nos e faz-nos sorrir para a vida.
Sob a batuta de João Roxo e com a mestria de Gil Gonçalves que de forma mágica toca a sua tuba com classe, a Orquestra Municipal do Fundão é apenas uma amostra da riqueza musical de uma pequena e localizada no interior de Portugal.
É o Fundão a dar cartas à vizinhança e a embalar-nos numa linguagem harmoniosa e cheia de boas energias para o Ano Novo de 2018.
Que seja um ano de ouro para todos!
sexta-feira, dezembro 29, 2017
Dos anos que não deixam saudades
Dizer
que 2017 é um ano que não vai deixar-me saudades é quase um lugar-comum. Efetivamente
os últimos doze meses, mas também os últimos anos, não me deixam saudades.
Ou
seja por a morte levar muitos amigos, conhecidos e até familiares. Ou por ter
cada vez maior consciência de que o mundo não é perfeito e que o país das
maravilhas é apenas um sonho de Alice. Mas também por sentir que a amizade e a
reciprocidade são cada vez mais substantivos femininos que não vão além do
léxico.
Este
é também um tempo em que a partilha e a promoção do convívio e harmonia entre
pares permanecem arredados da sociedade cada vez mais tecnológica e digital e
pouco dada à companhia e vivências entre pares.
Lamentos
à parte, o ano que agora termina deve servir para retirarmos lições de futuro e
reganharmos a força e motricidade suficientes para darmos a volta ao texto e
começar de novo.
Iniciar
um novo ano não significa apenas encerrar um capítulo. Significa ser capaz de
aprender com os erros ou ações menos apropriadas.
Significa
observar o passado, guardar as memórias boas e apagar todos os retratos e
imagens que nos entristecem e deixam mais céticos.
E
num ano vincadamente marcado pelo inferno dos incêndios florestais e pela
insensibilidade de quem gere o território, importa sermos capazes de enterrar a
fragilidade tornando-nos mais fortes e capazes reinventar modos de vida.
Reinventar
também é reclamar do atores políticos ações e boas práticas que vão além da
palmadinha solidária aos que no último Verão perderam familiares e amigos,
observaram a fúria do fogo e viram as suas vidas reduzidas a cinzas.
Que
o novo ano faça de todos nós pessoas audazes e resilientes. Que nunca nos doa a
voz para dizermos que os problemas de quem perdeu vidas, trabalho e viu comprometida
a economia de subsistência precisam de muito mais do que uma Unidade de Missão
e Valorização do Interior.
Criar
organismos, transportá-los para onde a dor é agora mais aguda, desenvolver
linhas programáticas de ação é fácil. Basta dar uso ao verbo.
Mas
o verbo não chega. É preciso ação.
Agir.
Mudar as políticas. Criar condições para desenvolver comunidades. Promover
ações que se traduzam em mecanismos reais e práticos com vista à criação de
emprego, à fixação de pessoas, ao desenvolvimento harmonioso dos territórios.
Se
assim for, certamente que daqui a um ano não estarei, não estaremos a
despedir-nos do ano velho com um sentimento de dor e impotência face à
realidade que caracterizou 2017.
O
mais negro dos anos levou-nos pessoas, floresta, produção agrícola e empresas. 2017
desnudou um Estado incapaz de evitar a morte de mais de uma centena de pessoas.
É,
pois, um ano que não deixa saudades.
quarta-feira, dezembro 13, 2017
A Cantata de Natal da Academia de Música do Fundão
Chegou a época natalícia e com ela os habituais concertos de Natal promovidos pela escola de ensino artístico da Santa Casa da Misericórdia do Fundão.
Este dia as obrigações profissionais levaram-me a um desses momentos ricos de criação e execução musicais. Fi-lo com o sentido prazeroso do costume e o momento fez-me sentir mais leve e cheia de vontade de, este ano, celebrar o Natal.
A razão vai muito além do concerto. Mas não posso deixar de explicar ao leitor o quão aquelas palavras do narrador cativaram o ser fazendo-me sentir num verdadeiro ambiente de Natal.
Um sentimento, estou certa, comum às muitas pessoas que naquela noite de invernia, caracterizada por ventos ciclónicos e chuva abundante, sairam do conforto do lar e terão aquecido os corações num exemplar momento cultural e de intensa introspeção.
No palco improvisado da igreja matriz do Fundão estavam várias dezenas de crianças de muitas idades que cantavam de forma harmoniosa e transmitiam um sentimento de invulgar amor ao Natal.
A explicação poderá estar no conteúdo da peça que aqui partilho e que muito nos fala das tradições do Natal na região da Beira Baixa.
A Cantata de Natal da autoria de José Manuel Nunes é uma viagem imensa às tradições em louvor do Menino Jesus, da Missa do Galo e da romaria de gente à volta do Madeiro.
Realidades tão bem documentadas na Etnografia da Beira de Jaime Lopes Dias e que, em certa medida, estão na Cantata que aqui partilho.
E embora as condições técnicas do vídeo não sejam as melhores - pois não se ouvem bem as vozes do narrador, do anjo e dos Reis Magos - vale a pena escutar esta gravação. A obra em apreço engrandece o percurso da Academia de Música e Dança do Fundão onde, felizmente, a cidade do Fundão tem um dos seus melhores ativos culturais.
Fiquem com o vídeo e embrenhem-se no espírito natalício.
segunda-feira, dezembro 04, 2017
A Inutilidade dos Dias Cinzentos
Na manhã do primeiro de
dezembro após o desafio de uma velha amiga e cúmplice nas andanças dos livros
fui ao encontro de uma tertúlia poética que todos os meses acontece num dos
mais aprazíveis lugares do “meu” Fundão.
O sol que por esta altura
anda baixo já havia aberto os braços por forma a receber-nos e a transmitir-nos
um pouco de calor. Em dezembro faz frio em todo o lado mas há momentos e
lugares em que tudo se transforma e as dinâmicas quase nos fazem crer na
inutilidade dos dias cinzentos.
Claro que a manhã radiosa
só poderia afastar todas e quaisquer nuvens que, mesmo longe do horizonte,
pudessem apoderar-se do ser.
E o ambiente que se vivia
naquele pedaço de manhã no Tertílias era tudo menos cinzento! Foi então que a
manhã introspetiva das palavras e o universo poético da editora Alma Azul me
tomaram o tempo e ajudaram naqueles momentos de meditação coletiva à volta da
poesia de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa).
Na Tertúlia poética
dinamizada pela minha querida Elsa Ligeiro o bloguer Ricardo Reis abriu a
reflexão com a leitura de Aniversário.
E diz o poema:
No tempo em que festejavam o dia dos
meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. (…)
Começamos então a partilhar ideias sobre o que pretendeu o poeta transmitir-nos. Mal nos descuidamos já opinávamos sobre as frustrações do ser ou a capacidade que nós, os mais adultos e experientes, vamos ganhando quanto à consciência dos efeitos desta vida povoada de timings e outras exigências que nos privam de caminhar ao sabor do nosso contentamento e dos prazeres da vida.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. (…)
Começamos então a partilhar ideias sobre o que pretendeu o poeta transmitir-nos. Mal nos descuidamos já opinávamos sobre as frustrações do ser ou a capacidade que nós, os mais adultos e experientes, vamos ganhando quanto à consciência dos efeitos desta vida povoada de timings e outras exigências que nos privam de caminhar ao sabor do nosso contentamento e dos prazeres da vida.
E eis que alguém traz à lembrança
a obra de António Ramos Rosa quando em “O Grito Claro” escreveu sobre o
funcionário cansado.
A noite trocou-me os sonhos
e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só
E ali permanecemos mais um
bocado na conversa à volta dos livros e questionámo-nos sobre o sucesso de
alguns escritores, às vezes produzidos pelo frenesim das redes sociais, e o
desalento de outros que escrevendo belíssimas narrativas continuam a não
conseguir sobreviver da literatura.
Também falámos da falta de
tempo para os nossos sonhos e para estarmos com quem deveríamos ou gostaríamos
de estar muitas e variadas vezes.
E agora que partilho com o
leitor o que me ficou daquela manhã de poesia no Tertílias, no Fundão,
lembro-me como gostaria de estar tantas e muitas mais vezes com os meus amigos
de coração.
Os tais que cabem no poema
de Alexandre O´Neill quando nos diz:
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão! (…)
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão! (…)
E hoje, que faz sete anos que passei a acompanhar de forma mais próxima alguém que faz da amizade uma grande festa, estou cheia de vontade de voltar às tertúlias da Alma Azul e sugerir que depois da obra de Eugénio de Andrade, que revisitaremos em janeiro próximo, possamos partilhar textos e pretextos alusivos aos amigos.
Aqueles que nos ajudam a
afastarem os dias cinzentos.
terça-feira, novembro 28, 2017
Os Amigos Revelam-se
Num
dos textos do livro “O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas”, o teólogo José
Tolentino Mendonça sugere ao leitor uma reflexão sobre os amigos de perto e de
longe. Os que estão sempre presentes e os distantes. Na atitude e no verbo.
Sugere o escritor e poeta que sejamos capazes de valorizar a afeição em vez da posse.
E mesmo quando o desprendimento é uma realidade, Tolentino Mendonça sugere que sejamos capazes de crer na essência da história e na origem dos laços.
E diz o texto:
“A etimologia da amizade reenvia-nos, assim, não para uma qualquer experiência casual, mas para a memória daquela afeição primeira que estrutura silenciosamente a existência. Por isso, na sua espantosa leveza, e sem alardes, a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nós: faz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora.
Nem todas as nossas amizades chegam a tomar consciência da extraordinária viagem interior que as mobiliza”. (…)
É
bem verdade que muitas vezes a amizade não vai além da verbalização de uma
palavra mas há sempre a esperança de que os verdadeiros amigos estejam sempre
ao nosso lado.
Haja
o que houver!
Porém há os dias em que a dúvida se instala e a alma veste-se de negro por sentir que uma e outra vezes, muitas vezes, a amizade deixa de traduzir-se em afeição e passa a ser um termo amplo e sem gesto. Sem o laço genuíno que vinha da primeira e silenciosa estrutura.
É então que nos olhamos ao espelho e nos perguntamos se o defeito é nosso. E se o nosso conceito de amizade e reciprocidade combina com a abordagem prosaica de uma convivência e cumplicidade sem estimulo e carregado de omissões e ingratidão.
Estes têm sido anos para desbravar caminhos, afastar pedras e vencer barreiras.
É também um período da minha vida em que tenho observado os meus amigos. Os de perto e de longe. Os presentes e os ausentes. Os desprendidos que são capazes de surpreender. Pela sua generosidade pela genuinidade de cada gesto!
Quem se lembra de nós, quem gosta de nós, promove. Age. Não omite. Dá continuidade ao registo.
Que me desculpe o José Tolentino Mendonça mas eu preciso de sentir que os meus amigos mesmo distantes estão próximos.
Estão sempre aqui. Chamam por mim. Perguntam como estou. Acompanham o meu percurso. Ouvem, leem e criticam. Dizem presente.
E
fundamentalmente não são ingratos.
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